Simão foi. Já não é. Não
estava destinado a ser, chego eu a essa conclusão.
Simão nasceu cão. Tolo
que nem ele só. Raça pura ou vira-lata, não lhe interessou nunca. Era um cão e
como tal se portava.
Era pequeníssimo, tanto,
que muitas vezes eu nem o via. Chamava-o e, quando furiosa por ele não vir ao
meu chamado, me virava já barafustando, dava de cara com ele sentado, a olhar
para mim com aquela cara só dele, de "não vês que já cá estou? És
tola ou quê?" E eu passava-me da cabeça.
Na praia ninguém ficava
indiferente à presença de Simão: ele não se deixava passar despercebido, apesar
do pouco tamanho. E sua maior felicidade era correr para o primeiro ser que
visse e saltar, saltar, como se quisesse compensar com isso, sua pequenez.
Toda a gente se encantava
e ele se encantava com toda a gente. Mesmo os cães enormes com cara de poucos
amigos, que de início paravam a olhar aquela coisinha aos saltos, acabavam por
disparar com ele em corridas fantásticas pelo areal.
Houve uma manhã, que vai ficar na história das nossas vidas, em que ele cruzou
na areia com uma cadelinha pequenita pinscher. Foi uma loucura!
Mal se aproximou o Simão, o dono da cadelita assustou-se com a abordagem deste
e, muito nervoso e a dizer muito aflito que a dele era "uma
cadêlinha" (o circunflexo é para melhor descrever a maneira querida
como o senhor chamava o seu ser-amado), o que, para ele, deveria
significar: "ela é uma relíquia e este desastrado rafeiro ainda a
destrói"...
Eu, educadamente, ainda tentei acalmar o senhor dizendo que Simão também era
apenas um cãozinho: só tinha seis meses.
Mas, estava eu e minha filha a tentarmos acalmar o homem quando, não sei o
que Simão disse ao ouvido da cadêlinha
que, de repente, desataram os dois a correr, como já nos era habitual ver.
Mas o senhor não estava acostumado àquilo. Enervou-se tanto. Deu de correr atrás dos dois cães que agora já andavam aos
círculos, alegres como lhes era de direito.
Diante de minha mais pura estupefacção, a dada altura, o senhor deu de se atirar
num salto destemido, à guarda-redes (goleiros) quando para deter
a bola, mas a ânsia dele era segurar a cadêlinha. E ai! que caiu estatelado de cara na areia enquanto os outros dois
prosseguiam na brincadeira, só a parar quando eu consegui segurar Simão,
ficando então, a cadêlinha perfeitamente
incólume a olhar, parada na areia, para o colega já no meu colo.
O homem levantou-se dum salto, agarrou a cadêlinha
e "ai, meu Deus! o coração dela
está aos saltos."
E eu ainda a ver se o acalmava: "É
natural, andou a correr divertida..."
"Ai, a minha cadêlinha... ai o
coraçãozinho dela..."
"Ó homem! Este também tem o coração
aos saltos!" - e agarrei-lhe a mão para que sentisse o bater
corrido dentro do peitinho do meu Simão...
Ai vida. Ai homens e suas cadêlinhas.
Só uma coisa assustava o
Simão: o mar. Talvez por culpa minha, pois eu morria de medo que ele
fosse nas ondas e gritava com minha filha, sempre quando o mar chegava mais
perto.
Então depois era ele que corria, que fugia, quando via a onda a chegar...
Com o mar ele não queria nada.
Pois Simão acabou.
E levou um bocadinho da gente com ele.
em 2011
Nota: Na falta de foto de Simão, que na altura, foram todas apagadas, talvez erradamente, na estúpida crença de que o que os olhos não vêem, o coração esquece, uso uma foto de um dos meus sites de eleição, como sempre, devidamente linkado.
Poderia ter escolhido uma outra qualquer, mas esta é a que melhor se assemelha "ao sorriso" de Simão, na sua vivacidade.
Simão existiu de verdade, e era tolo de verdade. Sua energia era inversamente proporcional ao seu minúsculo tamanho. Imparável. Incontrolável. Levando esta mulher aos píncaros do desespero muitas vezes, para delícia de quem mais o amava: a filha, que o levava para todo o lado, na mochila, onde ele se deixava transportar sempre de bom grado e "sorriso" aberto.
Talvez adivinhasse que o tempo lhe era escasso.
Morreu com míseros oito meses.
Morreu por imprudência, irresponsabilidade ou pura ignorância de alguém (porque existem pessoas, que não adianta a gente tentar sensibilizar, ensinar: simplesmente não sabem aprender. E admito, também culpa minha, que, em algum momento quebrei a guarda) que, para se precaver contra roedores indesejáveis, deixou veneno (raticida) onde não devia, sem as devidas precauções (em armadilhas: caixas próprias, compridas e com aberturas em tamanho pequeno, apropriado apenas para entrada dos roedores, onde se deposita o veneno no fundo, de maneira a que gatos e cães não possam alcançar e comer).
O animal que ingere estes raticidas, segundo ensinou o veterinário, na altura, aguenta dois dias ou até mais, sem dar sinais de que está envenenado.
Se ninguém se apercebe do envenenamento, e não age nas primeiras horas, quando ainda há alguma possibilidade de tratamento, o envenenamento é fatal. Pode saber mais aqui.
Este texto sobre Simão já havia sido publicado anteriormente quando o blog ainda era o "Filosofando em cima da bicicleta", e estava em rascunho, como outros, quando da mudança para o atual "Do lado do Sol".
Agora, achei que era hora de busca-lo novamente, ao ler as dicas dos "cuidados a ter com o seu cão no outono" no blog de Brown Maria, aqui.