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21/03/16

A primeira vez


 A sensação que ficou quando o conheceu,
foi de que ele era como um bolo de
chocolate acabado de sair do forno: um tentador aroma
a tomar conta do
espaço e dos desejos e
a efectiva incapacidade de não lhe dar uma
trinca ainda quente.

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15/11/14

Simão



Simão foi. Já não é. Não estava destinado a ser, chego eu a essa conclusão.
Simão nasceu cão. Tolo que nem ele só. Raça pura ou vira-lata, não lhe interessou nunca. Era um cão e como tal se portava.
Era pequeníssimo, tanto, que muitas vezes eu nem o via. Chamava-o e, quando furiosa por ele não vir ao meu chamado, me virava já barafustando, dava de cara com ele sentado, a olhar para mim com aquela cara só dele, de "não vês que já cá estou? És tola ou quê?" E eu passava-me da cabeça. 

Na praia ninguém ficava indiferente à presença de Simão: ele não se deixava passar despercebido, apesar do pouco tamanho. E sua maior felicidade era correr para o primeiro ser que visse e saltar, saltar, como se quisesse compensar com isso, sua pequenez.
Toda a gente se encantava e ele se encantava com toda a gente. Mesmo os cães enormes com cara de poucos amigos, que de início paravam a olhar aquela coisinha aos saltos, acabavam por disparar com ele em corridas fantásticas pelo areal.

Houve uma manhã, que vai ficar na história das nossas vidas, em que ele cruzou na areia com uma cadelinha pequenita pinscher. Foi uma loucura!
Mal se aproximou o Simão, o dono da cadelita assustou-se com a abordagem deste e, muito nervoso e a dizer muito aflito que a dele era "uma cadêlinha" (o circunflexo é para melhor descrever a maneira querida como o senhor chamava o seu ser-amado), o que, para ele, deveria significar: "ela é uma relíquia e este desastrado rafeiro ainda a destrói"... 
Eu, educadamente, ainda tentei acalmar o senhor dizendo que Simão também era apenas um cãozinho: só tinha seis meses.
Mas, estava eu e minha filha a tentarmos acalmar o homem quando, não sei o que Simão disse ao ouvido da cadêlinha que, de repente, desataram os dois a correr, como já nos era habitual ver.
Mas o senhor não estava acostumado àquilo. Enervou-se tanto. Deu de correr atrás dos dois cães que agora já andavam aos círculos,  alegres como lhes era de direito.


Diante de minha mais pura estupefacção, a dada altura, o senhor deu de se atirar num salto destemido, à guarda-redes (goleiros) quando para deter a bola, mas a ânsia dele era segurar a cadêlinha. E ai! que caiu estatelado de cara na areia enquanto os outros dois prosseguiam na brincadeira, só a parar quando eu consegui segurar Simão, ficando então, a cadêlinha perfeitamente incólume a olhar, parada na areia, para o colega já no meu colo.


O homem levantou-se dum salto, agarrou a cadêlinha"ai, meu Deus! o coração dela está aos saltos." 

E eu ainda a ver se o acalmava: "É natural, andou a correr divertida..."

"Ai, a minha cadêlinha... ai o coraçãozinho dela..."

"Ó homem! Este também tem o coração aos saltos!" - e agarrei-lhe a mão para que sentisse o bater corrido dentro do peitinho do meu Simão...

Ai vida. Ai homens e suas cadêlinhas. 

Só uma coisa assustava o Simão: o mar. Talvez por culpa minha, pois eu  morria de medo que ele fosse nas ondas e gritava com minha filha, sempre quando o mar chegava mais perto.
Então depois era ele que corria, que fugia, quando via a onda a chegar...

Com o mar ele não queria nada.

Pois Simão acabou.
E levou um bocadinho da gente com ele.
em 2011


 Nota: Na falta de foto de Simão, que na altura, foram todas apagadas, talvez erradamente, na estúpida crença de que o que os olhos não vêem, o coração esquece,  uso uma foto de um dos meus sites de eleição, como sempre, devidamente linkado. 
Poderia ter escolhido uma outra qualquer, mas esta é a que melhor se assemelha "ao sorriso" de Simão, na sua vivacidade.

Simão existiu de verdade, e era tolo de verdade. Sua energia era inversamente proporcional ao seu minúsculo tamanho. Imparável. Incontrolável. Levando esta mulher aos píncaros do desespero muitas vezes, para delícia de quem mais o amava: a filha, que o levava para todo o lado, na mochila, onde ele se deixava transportar sempre de bom grado e "sorriso" aberto.
Talvez adivinhasse que o tempo lhe era escasso.
Morreu com míseros oito meses.

Morreu por imprudência, irresponsabilidade ou pura ignorância de alguém (porque existem pessoas, que não adianta a gente tentar sensibilizar, ensinar: simplesmente não sabem aprender. E admito, também culpa minha, que, em algum momento quebrei a guarda) que, para se precaver contra roedores indesejáveis, deixou veneno (raticida) onde não devia, sem as devidas precauções (em armadilhas: caixas próprias, compridas e com aberturas em tamanho pequeno, apropriado apenas para entrada dos roedores, onde se deposita o veneno no fundo, de maneira a que gatos e cães não possam alcançar e comer). 

O animal que ingere estes raticidas, segundo ensinou o veterinário, na altura, aguenta dois dias ou até mais, sem dar sinais de que está envenenado.
Se ninguém se apercebe do envenenamento, e não age nas primeiras horas, quando ainda há alguma possibilidade de tratamento, o envenenamento é fatal. Pode saber mais aqui.

Este texto sobre Simão já havia sido publicado anteriormente quando o blog ainda era o "Filosofando em cima da bicicleta", e estava em rascunho, como outros, quando da mudança para o atual "Do lado do Sol"
Agora, achei que era hora de busca-lo novamente, ao ler as dicas dos "cuidados a ter com o seu cão no outono" no blog de Brown Maria, aqui










29/08/14

Eu tive um gato


Eu tive um gato.
Não era um gato qualquer,
Desses que só fazem miar,
Sem que se consiga
Lhes entender o falar.

Meu gato
Falava-me,
Contava-me
Coisas.
Confessava-me
Por onde andava,
E perguntava-me
Onde fora eu,
Quando me ausentara.

Meu gato
Escutava-me
Como mais ninguém.
Meu gato
Olhava-me nos olhos
Com aqueles seus
Que eram dum azul
Mais lindo,
Que nem o sei descrever.
Não era o azul
Do mais límpido céu,
Nem o do mar profundo.
Era um azul
Único,
Como mais nenhum
Eu vi igual.

E com seus olhos azuis
Me namorava,
Mas apenas
Quando estávamos sós,
Não fosse alguém
Achacar-se
Por ciumeira boba.

Meu gato
Além de português,
Era um siamês,
Com ascendência italiana,
Por certo,
Se não nesta,
Numa outra
Vida passada,
Pois que meu gato
Gostava
Do bom esparguete.
E quando lho servia,
Lambia os bigodes
E parecia
Sorrir-me
Aquele seu
Olhar azul.

Houve um gato
De olhos azuis,
Vindo do Sião,
Que era português
Com ascendência italiana,
Que amava esparguete
E gostava
De mim assim.

Não fui eu
Que o tive,
Foi ele
Que me teve
A mim.




Nota: Deve-se o nome siamês ao facto dos ocidentais terem-no "descoberto" em Sião - atual Tailândia.
Para quem quiser ler umas "curiosidades" sobre o gato siamês:
http://www.tudogato.com/2011/06/siames-thai-gatos-de-raca.html

A foto utilizada é meramente ilustrativa, não correspondendo ao gato que inspirou o texto.
O meu gato siamês de olhos azuis existiu realmente.
Viveu uma vida que durou escassos três anos. Já se foi há quase dez anos, mas durará enquanto nós, que convivemos com ele, durarmos e tivermos capacidade para recordar as tantas lembranças que ele deixou, como, por exemplo, sua paixão por massa, ou sua recusa em usar a caixa da areia que tinha à disposição, e sair, pelo exíguo espaço vulnerável que descobrira entre as telhas da marquise, para alcançar o jardim, seu wc de eleição.
Era dono de suas vontades. E assim nos cativou e nos fez amá-lo da forma como o amamos, a ponto de, ainda hoje, volvidos tantos anos, lembrá-lo, ainda emocionar.