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06/06/15

Meu grito



Quero subir
à mais alta montanha e,
lá do píncaro,
estender minha voz
até que se ouça
nos confins do mundo.
Quero gritar,
gritar o mais alto
que a força me permitir.
Soltar minha dor,
deixá-la ir dizer
ao céu
o quão grande ela é,
o quanto
que me deixou sofrer.

Tu, céu,
quando vires o sol
a deitar-se
sobre o horizonte,
essa linha de seda
que teceste
para mostrar
ao Homem
que não te haveria
de alcançar,
lembra-te que
também eu
deito-me todos os dias,
em desiludida agonia,
sobre as mágoas
que me deixaste.


http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Grito_%28pintura%29#/media/File:The_Scream.jpg

E então, em agonia, veio-me à memória a famosa pintura...

O Grito (Skrik) é uma série de quatro pinturas expressionistas, sendo o original de 1893, do pintor norueguês Edvard Munch.
A fonte de inspiração de Munch advém de sua própria experiência pessoal de vida e de seu estado de espírito, o que não há de surpreender a muitos, digo eu, pois considero que a obra de um artista está intrinsecamente ligada ao seu estado de espírito.
Segundo seus próprios registos, a obra terá nascido duma experiência  quando passeava com dois amigos durante um pôr-do-sol e, ao observar o céu, viu "línguas de fogo e sangue sobre o fiorde azul escuro" - enquanto os amigos continuaram a caminhar, o artista permaneceu imóvel, a tremer de ansiedade, perante o que seus olhos conseguiam distinguir nas luzes de cor a envolver toda a natureza ao redor: "sentia o grito infinito da natureza".

A grandeza desta pintura reside na busca do artista em apresentar a visão do mundo por parte de quem sofre, que toda a natureza distorcida/contorcida tal e qual a sua própria dor.

Foi exposto pela primeira vez em 1903 como parte duma série intitulada "O Amor" que reproduz as várias fases do amor, desde o encantamento à ruptura - "O Grito" pretende representar a angústia da última fase.









17/05/15

As nossas dores



Nós somos uma alma marcada por cicatrizes que vamos acumulando no nosso percurso.
Porque as perdas são várias. Algumas marcam bem fundo, como feitas a estilete e, deixam cicatriz que nunca desvanece, porque a dor da perda quer fidelidade e parece ter medo que esqueçamos que ela foi nossa um dia.

Há perdas que semeiam em nós dores que nos fazem chorar baba e ranho durante dias, semanas, meses a fio! e depois, acompanham-nos durante todo o resto da vida. Às vezes, parecem meio adormecidas. Mas apenas até que uma voz, ou melodia, ou um qualquer cheiro as acorde. E aí, acordadas desse entorpecimento do sono voltam a latejar com a força de início e, é difícil tornar a aconchega-las no regaço e fazê-las adormecer.

As nossas perdas, essas, ninguém as sente, nem sofre por nós.
Nada as colmata, a não ser nós mesmos, quando, depois do ranho todo cá fora, inspirarmos fundo e nos vier a vontade de sobreviver.




06/05/15

Ó amor!




Ó amor idolatrado!
Tanto do que te cantam
São lágrimas de abandonado.
Por te quererem
Tantos choraram,
Tantos filhos nasceram,
Tantas mães lamentaram.
Quanta vida por viver
Quando a alegria deixou de ser.
Terá valido a pena?
Que o diga
Quem amou.
Se para passar pelo amor
Riu e chorou,
Conheceu tormenta e dor,
Pediu a Deus,
Inverteu o santo,
Perdeu-se na espera,
Não usou véu nem manto,
Culpou os céus, por fim,
Dos pecados seus.



08/03/15

Ser mulher no dia da mulher e nos outros também




Na minha rua
Há uma casa
Onde mora um monstro
Com rosto
De príncipe encantado
Que abre a porta
Aos terrores,
Que semeia
Um mundo de pavores,
Tantas lágrimas!
Indizíveis dores
Encerram os cómodos
Daquela casa.
Mas eis que sai à rua
O monstro
De braço
Com a princesa
Que no rosto traz
Lindo sorriso
E nos olhos
Esconde tristeza.

Para além de rosas, laços e sorrisos, não fica mal falar e manter viva a ideia da Organização das Nações Unidas ao instituir em 1975, o 8 de março como dia Internacional da Mulher para que se marcasse as conquistas políticas, sociais e económicas conseguidas pelas mulheres, duma luta iniciada na viragem do século XX, tanto na Europa como nos Estados Unidos, em que reclamavam por melhores condições de trabalho - numa altura em que “era normal” trabalhar 16 horas diárias e receber até 1/3 do salário masculino - e pretendiam ainda o direito ao voto.

Após tantas lutas e tantas conquistas, ainda tanto por conseguir.
A injustiça social e profissional e a violência dentro e fora de portas continuam a perseguir a mulher.

  • A mulher é vítima quando trabalha em condições semelhantes ao homem e recebe salário inferior;

  • A mulher é vítima quando é desrespeitada e assediada sexualmente no local de trabalho;

  • A mulher é vítima quando não lhe é garantido seu posto de trabalho para que possa assegurar a criação de seus filhos com dignidade;
  • A mulher é vítima quando, em nome de tradições culturais sofre mutilação genital, perpetrada por sua própria família;
  • A mulher é vítima quando, ainda em nome das tradições é obrigada, contra sua vontade, a casar-se;
  • A mulher é vítima quando é forçada a prostituir-se;
  • A mulher é vítima quando sofre de violência doméstica – no ano passado (2014), em Portugal morreram uma média de uma mulher a cada semana nas mãos de seus algozes; este ano já morreram seis mulheres – pode ver aqui.  ... Já o Brasil conseguiu uma vitória na luta em oposição à violência contra as mulheres com a aprovação, esta semana, no dia 3 de Março, do projecto lei que torna o feminicídio um "crime hediondo", em que a punição será mais severa sempre que uma mulher for assassinada por violência doméstica ou sexual - pode ver aqui.
  • A mulher é vítima quando é usada como arma de guerra – o horror da guerra é sempre maior para as mulheres e meninas que, cada vez mais, sofrem estupros brutais, são vítimas de tráfico humano, são tornadas escravas sexuais – como pode ver aqui num alerta do Vaticano na ONU.


Há vinte anos, líderes mundiais reuniram-se em Pequim e comprometeram-se a garantir os direitos das mulheres e jovens.

Hoje, Lucy Freeman – directora do programa de género, sexualidade e identidade da Amnistia Internacional diz que esses direitos estão ameaçados – pode ver aqui o relatório.


A APAV - Associação de Apoio à Vítima está a lançar uma música que tem poema do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho e que quer ser um hino pelas vítimas da violência doméstica. São oito cantoras portuguesas que querem dar a voz por quem sofre em silêncio.
Pode ouvir e fazer o download da canção aqui no site da APAV.




Bem, se você, como eu,  MULHER, teve a coragem de lembrar de todas estas realidades e chegar aqui, só me resta, para finalizar, sorrir-lhe e desejar do meu coração, que hoje, amanhã e nos dias que hão-de vir, você e eu possamos viver dignamente na condição de mulher, que apenas quer e merece ser ser humano.







17/11/14

A Dor



A Dor entranha-se
em cada pedaço de célula.
Instala-se,
faz-se dona deste corpo
que não é dela.

Mas quer lá saber.
Licença não existe
para ser pedida,
mas para fazer
a poucos
acreditar
que limites existem
para quem tem que os respeitar.

Dor não tem limite.
Dor não tem respeito.
Dor não pede,
mas apodera-se!
Dor não conhece o direito.

E eu?
Eu sou presa da Dor.
Sou a que
não lhe conhece o limite.

Não tenho direito,
não conheço o respeito,
não sei pedir,
pois sei que não há que receber.
Mantenho-me aqui,
sei
que não há para onde ir.

2012