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18/07/15

Deixa...




Trabalho é o que te espera,
pois que cultivar e gerar é a tua herança.
Deixar que a terra germine a semente,
permitir às entranhas que gerem um filho
que leve teu sangue para além de ti.
Pois dita a lei que perpetues a espécie.
Mas não ouses crer
que o filho de ti gerado
caminhará à sombra de teus passos.
É preciso que lhe soltes as amarras
para que navegue seu próprio mar,
para que lavre sua própria terra,
algures, longe
do teu protector regaço.
É preciso
que seu coração conheça as lágrimas
e seus olhos
alcancem vistas por ti desconhecidas,
que seus gritos
ecoem em altos montes,
que seus pés trilhem
por caminhos ainda não percorridos.
Não te lamentes.
Deixa que corra;
deixa que ame;
deixa que sofra;
deixa que erga castelos
que outros venham a destruir.
A glória não nasce em casa fechada.
Que se abram as portas e portões,
que se aponte ao horizonte.
Que se ouse perder
para ganhar.
É tempo de ver partir.




11/02/15

Carta de despedida



Já contei trinta anos desde o dia em que te foste, numa partida em que não nos permitiram a despedida.
Pergunto-me ainda hoje, como consentiste em ir sem deixar que eu olhasse teus olhos uma derradeira vez para reter na memória essa luz que enchia de serenidade a minha vida.
Foste e levaste-as contigo: à luz de teus olhos e à serenidade que conheci um dia.

Trinta anos passaram, tanto ficou por dizer… Tanto ficou por amar.
Questiono-me – se já se foi tanto tempo, por que não foi de mim esta dor que ainda me aperta o peito e me amarra a garganta num nó doído, de cada vez que não te sinto a meu lado?
Por que não foi de mim esta amargurada ânsia de bradar e de bater a quem te levou de mim?
E tu? Se prometeste estar sempre a meu lado, porque alçaste tuas asas naquele voo súbito e me deixaste aqui? Eu que não tinha asas, que não sabia voar… Eu que não sabia seguir-te, esperei que regressasses…
Esperei a noite toda, uma noite tão longa e escura, onde as estrelas não brilharam porque estavam de luto, também elas. E nessa noite longa e escura, onde as estrelas não brilhavam, o céu, até ele chorava, condoído de ver meu choro, ora pranto, ora choro calado, eterno lamento…

Só tu não entendeste que devias voltar, porque era a meu lado, o teu lugar.
Não voltas, realmente?
É para sempre a partida?

O que tem a morte de tão fascinante que te seduziu a ponto de me abandonares? Essa vadia enfarruscada que se esconde nas sombras, que cobiça a todos… o que, de tão fascinante te sussurrou ela, ao ouvido naquela noite, que te convencesse a segui-la? Insensato! Tão volúvel foste a seguir essa desconhecida e deixar-me aqui, tão só. Eu que não tinha asas, que não sabia voar, que nem conhecia o caminho…




07/02/15

A efemeridade dos deuses

De há uns anos para cá, tem este pensamento me perturbado a quietude da alma, porque, como é natural que seja, quando se é mais jovem e com a mente esverdeada focada nas descobertas dos atractivos da vida, é justo que não haja tempo de sobra para constatações acerca da efemeridade da vida e da decadência que a passagem do tempo dita.
Mas com o passar dos anos, a vida nos vai confrontando com o envelhecimento e com o declínio físico, que, se não é regra, atinge, no entanto, muitas das pessoas que endeusamos e que tínhamos como pressuposto, serem eternas e aprumadas, mantendo força e altivez intactas. Parece assim impossível, a nossos olhos, chegar um dia a constatar nesses nossos falsos deuses uma debilidade e um arqueamento do corpo directamente proporcional à vontade de contrariar o peso do tempo.
Nos últimos anos tenho sido confrontada, de forma recorrente, com esta degradação física e consequentemente emocional, de pessoas que um dia foram deuses, seres imponentes, donos das suas vidas, senhores da situação e de seus corpos, de seus próprios passos e orientadores dos passos dos seus queridos.
E esse envelhecimento do corpo não se prende apenas à idade, posto que, se há pessoas com idade bem avançada e autónomas, outras há, que cedo, por n circunstâncias, perdem seu vigor.

Perturba-me um pai que cede o comando de seus passos à atenção e cuidado do filho, que por ele, pai, contorna obstáculos, tal como um dia, ele, pai, o encaminhou pelos caminhos mais seguros para que não corresse risco de tropeçar.
Abala-me as estruturas, já de si oscilantes, presenciar um filho a segurar na sua mão a mão insegura do seu pai. A mão do filho a apoiar toda a vida guardada naquele homem que hoje é uma amostra mirrada do gigante que foi um dia.
Emociona-me o filho que segue a estender sua mão a todos os cantos e pisos que podem atraiçoar os pés cambaleantes do pai, adaptando sua casa, adaptando sua vida para que não haja quinas onde o pai se magoe, nem tapetes onde tropece, nem corrimão que falhe quando ele precisar se agarrar, nem banco que falte na pressa de assento para tomar fôlego, agora tão fraco.
Emociona-me o filho, que em seu amor único, transforma o pudor do banho em momento abençoado.

Mas o que me tira o ar e faz marejar os olhos é presenciar o filho que numa derradeira mostra de cumplicidade genuína, observa atentamente o pai que sorve em goles curtos a bica que ele lhe dá a beber, ali, sentados à mesa onde há quarenta anos, o pai ensinou-o a gostar de café.

24/01/15

Gostava que estivesses aqui

Gostava
que estivesses aqui,
mas não estás.
Há muito
que não estás.
Ter-te a meu lado
é coisa de outra vida.
Uma vida
que ficou algures,
perdida
num tempo
que estes anos
afastaram de mim.
Ter-te a meu lado
já não é coisa
que guarde
nas prateleiras
da lembrança.
Ter-te a meu lado
parece que foi sonho
que tive um dia.
Desses sonhos,
de tantos,
que a gente
tem na vida,
de que ficam
apenas
fragmentos
esfumados
espalhados
nos cantos
do nosso ser.
Gostava
que estivesses aqui.
Gostava
de, enfim,
ter-te a meu lado.
Gostava
de poder
olhar
teus olhos,
uma vez que fosse.
Esses olhos
que me olhavam
como mais
nenhuns
olharam.
Gostava
de poder falar-te.
Gostava
de poder ouvir
o que tinhas
para me dizer,
que fiquei
sem saber.
Faz tanto tempo,
que não sei
se vivi-te
ou se sonhei-te.


22/06/14

Nem cem anos de glória



Nem cem anos de glória
me compensarão
ou apagarão
as marcas torturantes
de cada minuto vivido
dos dias que se seguiram,
uns aos outros,
e que se tornaram meses…anos…
Nada compensará
a lágrima sem razão
sempre a insistir,
a teimosa.
Nada compensará
o choro estúpido sem freio,
feito criança tola
e ranhosa
que já nem sabe o porquê
de tanto chorar.
E a dor seca?
O lamento
que não chora,
escondido num sorriso aberto.
As gretas como
na terra sedenta
de água,
que, se eu fosse poeta diria:
Rachavam o coração.
Eu, que não sou poeta,
tenho-as entranhadas
em todo o meu corpo.
Cada centímetro meu
é terra árida,
com sulcos profundos
que chuva não trata.
É dor tremenda
que drogas não curam.
E que nem cem anos de glória
apagar-me-ão da memória.








09/05/14

Quando um dia



https://pixabay.com/pt/photos/?image_type=&cat=&min_width=&min_height=&q=por-do-sol&order=popular


Quando um dia chegar em que eu já não exista mais ao teu lado, quando eu já não respirar mais este ar, quando os meus olhos não enxergarem mais, quando a minha boca destravada finalmente se calar e os meus ouvidos sempre atentos não ouvirem…

Quando eu, por fim, não viver mais: recorda-me.


Eu quero existir nos teus pensamentos, na tua memória.
Por isso quero que memorizes cada um dos nossos momentos…
Quero ver
através dos teus olhos. 
Quero falar por tua boca.

Quero que tu não deixes que minha vida se perca na morte.
Quando tu olhares as coisas que eu te mostrei e te dei a conhecer,
quando admirares as paisagens mais belas
ou as cenas comuns da vida que eu te ensinei a apreciar,
eu estarei ‘vendo’!

Quando tu falares com outros sobre temas que eu contigo falei,
ou explicares aquilo que te foi explicado por mim,
eu ‘estarei falando’!

Quando ouvires as mesmas músicas que ouvimos juntas,
ou parares para saborear o canto da natureza que eu fartei-me de te querer provar ser a mais bela orquestra…
Aí, eu estarei ‘ouvindo’!

Quando tu passares adiante tudo o que eu conheci e passei a ti, terá então, valido a pena.
Quando tu aplicares em coisas práticas, aquilo que te ensinei ao longo dos anos…
quando falares em mim,
quando pensares em mim…
eu viverei!  


novembro/1990


13/04/14

Quero

https://pixabay.com/pt/p%C3%B4r-do-sol-mar-sol-aves-crep%C3%BAsculo-600095/

 
Quero mostrar-te
o pôr-do-sol,
a lua…
Quero dar-te a conhecer
o canto dos passarinhos.
Quero ensinar-te a vida
no que de belo ela tem.
Quero mostrar-te como fazer.

Quero…
Porque gosto
de mostrar-te as coisas!
Porque gosto
de ensinar-te coisas novas.
Adoro
quando me perguntas.

Quando vejo algo que me cativa,
é em ti que eu penso.
Penso no quanto que gostaria
de to poder mostrar.

Quando ouço os pássaros a cantar,
quando ouço uma música bonita,
é em ti que eu penso.
Adoraria
que estivesses comigo
naquele instante
a desfrutar do mesmo prazer,
e podermos curtir juntas
o mesmo momento.

Quando a luz radiante
do sol
me enche os olhos,
lembro-me que
essa mesma luz te ilumina, 
mesmo estando tu longe de mim…




09/05/10

MÃE



Mãe foi feita para acudir a Deus, que precisava de alguém para zelar e amar as
criaturas que Ele ia pondo no mundo.
Então a Mãe foi criada com uma capacidade de amar infinita.
A Mãe foi criada com uma força de leoa brava para proteger sua cria, dando, se preciso for, sua própria vida.
A Mãe foi criada com a capacidade única de rir quando sua vontade é chorar, só para dar alento a seu filho.
A Mãe foi criada com uma paciência enorme, do tamanho da estupidez do filho.
A Mãe foi criada para resistir à judiação do próprio filho.
A Mãe foi criada com um coração-esponja, para enxugar, para além das suas, também as lágrimas do seu filho pródigo.
E foi abençoada com uma generosidade sobre-humana capaz de perdoar sempre mais uma vez…
E é Mãe sempre, mesmo quando zangada, mesmo quando grita em altos brados, mesmo quando renegada.
É Mãe como só uma Mãe sabe ser.