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11/02/15

Carta de despedida



Já contei trinta anos desde o dia em que te foste, numa partida em que não nos permitiram a despedida.
Pergunto-me ainda hoje, como consentiste em ir sem deixar que eu olhasse teus olhos uma derradeira vez para reter na memória essa luz que enchia de serenidade a minha vida.
Foste e levaste-as contigo: à luz de teus olhos e à serenidade que conheci um dia.

Trinta anos passaram, tanto ficou por dizer… Tanto ficou por amar.
Questiono-me – se já se foi tanto tempo, por que não foi de mim esta dor que ainda me aperta o peito e me amarra a garganta num nó doído, de cada vez que não te sinto a meu lado?
Por que não foi de mim esta amargurada ânsia de bradar e de bater a quem te levou de mim?
E tu? Se prometeste estar sempre a meu lado, porque alçaste tuas asas naquele voo súbito e me deixaste aqui? Eu que não tinha asas, que não sabia voar… Eu que não sabia seguir-te, esperei que regressasses…
Esperei a noite toda, uma noite tão longa e escura, onde as estrelas não brilharam porque estavam de luto, também elas. E nessa noite longa e escura, onde as estrelas não brilhavam, o céu, até ele chorava, condoído de ver meu choro, ora pranto, ora choro calado, eterno lamento…

Só tu não entendeste que devias voltar, porque era a meu lado, o teu lugar.
Não voltas, realmente?
É para sempre a partida?

O que tem a morte de tão fascinante que te seduziu a ponto de me abandonares? Essa vadia enfarruscada que se esconde nas sombras, que cobiça a todos… o que, de tão fascinante te sussurrou ela, ao ouvido naquela noite, que te convencesse a segui-la? Insensato! Tão volúvel foste a seguir essa desconhecida e deixar-me aqui, tão só. Eu que não tinha asas, que não sabia voar, que nem conhecia o caminho…




13/11/14

Demónios disfarçados de anjos




https://pixabay.com

O que eu não tolero mesmo e que me leva aos beirais da loucura, são os falsos anjos. Homens e mulheres direitos(as) que batem no peito, que falam de honradez como quem fala de futebol na tasca da esquina, ou da moda para a próxima estação, no chá com as amigas.
Esses(as) que se dizem de boa cepa e em seu desvario até se crêem duma cepa da qualidade dum Chardonnay, embora não passem daquilo que são… bebida barata em embalagem duvidosa.

Os mais bem talhados fatos de vicunha, as superiores marcas disto e daquilo sobre o corpo e o mais bem sonante patoá têm por serventia encobrir-lhes a negrura d’alma.
E mesmo que lhes escancarem nas fuças que é indisfarçável o odor nauseabundo que denuncia a podridão dos becos percorridos no ínterim das reuniões de negócios e almoços de família, seguem na vida sem perder a pose de senhores(as) e, sem se coibirem de apontar, sem parcimónia, o dedo a quem nunca, sequer, cruzou com eles(as) nesses caminhos obscuros.
E esta agora?
E agora que o tempo passou…
Agora que a maledicência teimou;
Agora que as cicatrizes ficaram;
Agora que todo o tempo do mundo,
Por fim, se escoou;
E agora, quando afinal constata-se
Que o bem não vence o ultraje?

Eis que o demónio tombou,
E todos buscam a honra
De o acompanhar no cortejo.
E segue no cortejo a podridão
Em urna da melhor cepa adornada a ouro;
Acompanhada das mais caras e raras flores;
Ladeada de fatos de lapela e mãos ao peito,
Em ostensiva,
Tão espampanante dor…
Oh! que só os bons se vão…
Segue o cortejo a honrar a podridão.
A honra tilinta nos bolsos
E carteiras que seguem no cortejo.
E o cortejo segue.
Honra à podridão!
Tanta é a comoção.
A terra mais fina
Cobrirá a urna da melhor cepa,
Que reluz mais
Do que brilha a alma
Que anda ali,
Ainda sem saber direito
Em que beco deixou a honra…
Demónios disfarçados de anjos…
Perdurará o engodo?
Não se rompem bolsos e carteiras a espalhar a honra pelo chão?

E não há quem ponha um níquel na mão da alma desvairada, a quem o cortejo confunde os passos que se assemelham aos de um ébrio, à procura em meio às flores e rostos, que nem reconhece, a honra que deixou algures…





17/06/14

O véu negro

https://pixabay.com/pt/fantasma-fantasmag%C3%B3rico-encantado-259671/




O véu negro
aproximou-se de ti
e cobriu-te.
Agasalhou-te.
Seria frio
o que sentias?

Pergunto-me
se sentirias
o toque leve
de sua asa
nessa tua pele
carcomida
pelas agruras
de uma vida errante.
Tanto tempo
sem um carinho...

Seria o aconchego
que ansiavas?
Nem questionaste
quem to oferecia.
Já te seria,
decerto,
indiferente
de quem viria
o alento
que te faltava.

Reconhecerias o rosto
que trazia o véu negro
que te cobriu?
Compreenderias
que ao recebe-lo
não haveria volta?

Terias tu
o abraçado
tanto como ele
te abraçou a ti?
Ou deixarias,
impávido,
que te envolvesse
o terno calor
com que te brindava Tânatos
enquanto te sorvia a vida?




P.S.

A morte chegou-nos à porta e deixou um travo amargo de indignação.

Levou, sem aviso, alguém que nos era muito próximo. Não diria que era uma pessoa muito querida. Mas era, com certeza, mais chegada que algumas muito queridas.

As pessoas assim chegadas são aquelas a quem a vida fez cruzar caminhos próximos ou os mesmos que os nossos e que ocupam um lugar ali, algures entre a família e os amigos.
São pessoas que estão na nossa vida praticamente todos os dias, para o bem e para o mal. São aquelas que nos aborrecem tremendamente, vezes sem conta, mas, na mesma medida, à sua própria maneira, nos dão auxílio nos nossos momentos complicados, mesmo que não pronunciem uma palavra de conforto, por não terem jeito com as palavras.
São aquelas a quem já conhecemos os hábitos mais subtis, o ritmo dos passos, reconhecemos o cheiro e os abraços.
A vida já me deu a triste oportunidade de cruzar com a morte vezes sem conta.
Por mais que tente, não consigo ainda aceitar que chegue em determinadas situações e lugares não só inconvenientes, mas até humilhantes e indignos a uma pessoa de bem.

Uma coisa é ver um corpo preparado com esmero, já depositado numa urna, outra bem diferente é ver um corpo indefeso, na posição em que se deixou ficar no momento em que a morte o surpreendeu e o ser deixou de ser pessoa. O sopro da vida esvaiu-se e restou apenas uma matéria inanimada, desprovida de qualquer reacção, insensível e inalterável na sua posição, como se de um manequim de vitrina de loja se tratasse.

Para quem crê na alma fica a sensação de que a verdadeira essência da vida fugiu num repente. Apetece, então, ir procurá-la para confortá-la.
Para quem apenas crê na matéria fica a dúvida, certamente, sobre o que realmente se terá passado ali, naquele milagre da vida/morte. Apenas química?
Pergunto a mim mesma se naquele lapso de tempo, entre o ser e o não serhaverá tempo para a tomada de consciência. 

Do nosso morto, ainda persegue-me a lembrança de ver o corpo naquela posição inerte e desprovida de fumo de vida com um abraço em suspenso.
Resta-me a incredulidade diante daquele abraço surpreendido pelo fim, que nem teve tempo de desabraçar.

Ou abraçaria a morte?