Já contei trinta anos desde o dia em que te foste, numa
partida em que não nos permitiram a despedida.
Pergunto-me ainda hoje, como consentiste em ir sem deixar
que eu olhasse teus olhos uma derradeira vez para reter na memória essa luz
que enchia de serenidade a minha vida.
Foste e levaste-as contigo: à luz de teus olhos e à
serenidade que conheci um dia.
Trinta anos passaram, tanto ficou por dizer… Tanto ficou por
amar.
Questiono-me – se já se foi tanto tempo, por que não foi
de mim esta dor que ainda me aperta o peito e me amarra a garganta num nó
doído, de cada vez que não te sinto a meu lado?
Por que não foi de mim esta amargurada ânsia de bradar e
de bater a quem te levou de mim?
E tu? Se prometeste estar sempre a meu lado, porque
alçaste tuas asas naquele voo súbito e me deixaste aqui? Eu que não tinha asas,
que não sabia voar… Eu que não sabia seguir-te, esperei que regressasses…
Esperei a noite toda, uma noite tão longa e escura, onde
as estrelas não brilharam porque estavam de luto, também elas. E nessa noite
longa e escura, onde as estrelas não brilhavam, o céu, até ele chorava, condoído
de ver meu choro, ora pranto, ora choro calado, eterno lamento…
Só tu não entendeste que devias voltar, porque era a meu
lado, o teu lugar.
Não voltas, realmente?
É para sempre a partida?
O que tem a morte de tão fascinante que te seduziu a ponto
de me abandonares? Essa vadia enfarruscada que se esconde nas sombras, que cobiça
a todos… o que, de tão fascinante te sussurrou ela, ao ouvido naquela noite, que
te convencesse a segui-la? Insensato! Tão volúvel foste a seguir essa desconhecida
e deixar-me aqui, tão só. Eu que não tinha asas, que não sabia voar, que nem conhecia
o caminho…


