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30/04/16

A noite desnuda





https://pixabay.com/

Esta noite,
no céu, que havia de ser perfeito, não há estrelas:
cansaram-se da monotonia,
foram brilhar do outro lado
do breu.
O luar não veio, adormeceu antes da hora.
Há quem diga que amanhã também não será dia,
porque o sol recolheu os raios e foi embora.








https://pixabay.com/


06/03/16

Um dia azul





Quero um dia de céu azul.
Limpo de nuvens e de ausências.
Limpo de todos os terrores,
em que o sorriso seja presença.

Em que eu possa sentir no ar
o cheiro quente dos novos amores.
Quero um dia de azul que encante.
E que não se engane, que acerte o tom,
que seja de azul autêntico,
do que não tolera prostração.

E então…poderei trilhar o tempo
que não é o de toda a gente.
O tempo sem prazo,
feito de instantes.
O tempo que se apraza de querenças,
o tempo que o céu envolva em abraço.





11/07/15

O coqueiro do quintal



Quando eu era pequena tive a felicidade de viver numa casa com quintal, onde havia dois coqueiros e também uma goiabeira que dava umas goiabas doces, de que hoje, passados mais de trinta anos, ainda guardo o sabor algures, nas minhas papilas e no meu coração.

De tempos a tempos, ia lá um homem capinar o quintal e, ao fim do trabalho, trepava ao cimo dos coqueiros a pegar os cocos. Levava uns quantos e deixava-nos alguns - eram mais os que levava, do que os que deixava, pois minha mãe não tinha grande paciência para ralar o coco e, o homem, naquele sorriso largo, agradecia.
Eu, depois mais crescida, era quem ralava o coco para que minha mãe fizesse a cocada que o homem de sorriso largo lhe ensinara a fazer, que, segundo ele, era tal e qual a cocada que a esposa fazia.
Na maior parte das vezes, eu ralava o coco e ralava os dedos também, mas nada me desmotivava do trabalho, pois a recompensa que me aguardava valia o esforço. E nem preciso dizer que não resistia sem abocanhar um punhado do coco acabadinho de ralar, porque não deve haver no mundo quem se dedique à tarefa de ralar coco, sem encher a boca com essa delícia sumarenta.
Depois do trabalho feito, pegava um pedaço de coco partido, ainda colado à casca dura e, sentada num canto do jardim, lá ficava eu, a roer aquele maravilhoso fruto branco, da cor da neve. Mas já com o nariz apontado ao cheiro de coco doce a chegar-me da cozinha  - ah, coisa boa, que é a vida de criança!

*Já experimentei comprar coco aqui. Mas deixei-me disso, porque o coco que a gente compra aqui em Portugal, não é para quem já comeu coco acabado de apanhar no coqueiro. O coco que nos chega aqui, parece que perdeu metade da água e do sabor no caminho da viagem - é que nem café requentado: é, mas não é







31/05/15

Areias de corpo e alma












O mar enfureceu-se contra os homens, ergueu suas ondas e lançou-se, resgatando as areias que eles não souberam cuidar.
Mas um dia, uma mão cheia de príncipes surgiu e quis provar ao mar que sabia da importância das areias e que havia de cuidar delas e chamar de volta as criaturas que outrora haviam feito das areias morada.
Prometeu que a vegetação que, um dia, povoara as areias havia de voltar para baloiçar-se ao vento naquela dança que ele, o mar, gostava e que o apaziguava.
O mar exigiu que se erguesse um belo castelo a fim de proteger as areias.

Mas os príncipes, que não eram mais que uma mão cheia e que traziam nas mãos apenas a vontade, que era boa, não prometeram castelos e ergueram muros simples, que, de tão simples, foram motivo de chacota por parte dos homens que haviam enfurecido o mar. Eram muros de ripas de madeiras, a que chamavam paliçadas, para abrigar as areias e não deixar que fossem levadas pelos ventos quando de seus ataques de fúria. Entre uma ripa e outra deixavam pequenas frestas, que eram como janelas para que o mar não perdesse de vista as areias que amava.
E cuidaram das pequenas plantas, que os homens apelidavam de ervas e que, apesar de moribundas, ainda espetavam aqui e ali a anunciarem-se na areia.
Ao longe, os homens, de braços cruzados, cochichavam entre si e, do alto da sua ignorância, atestavam que os príncipes eram loucos por acarinharem ervas.

As luas correram no céu. Veio o inverno. Após a primavera ergueu-se o verão e, como veio, se foi.
E muitas mais luas passaram. Passou novamente uma estação atrás de outra, como está escrito que seja.

Chegou, por fim, a primavera que haveria de mostrar que a vida, em silêncio, regressara às areias, que agora não eram apenas montes de areias que o vento levava daqui para ali. Não. Agora eram areias de corpo e alma, porque criaram raízes e deram vida a borboletas e pequenas aves. As areias agora são dunas. E das dunas desabrocham cores e cheiros que haviam sido esquecidos. E hoje, das dunas também desabrocharam asas que já ensaiam voo.






* Trabalhos que se fazem, na tentativa de repor o que, um dia, foi destruído aqui.


27/05/15

Uma batalha de cores e matizes



Esta é a época em que a natureza se veste de cor e desdenha das combinações que a moda dita.
O amarelo, a quem não escondo minha preferência, estufa-se vaidoso e enceta uma batalha de matizes contra o verde a preencher a paisagem.
Não o incomodam os pontinhos de rosa que com a alegria própria da inocência também querem um lugar ao sol, nem tão-pouco se interessa pelos encarnados que se juntam aos molhos e ensaiam um motim a reclamar protagonismo na pintura da grande tela.

Nesta guerra de cores quem ganha é o meu olhar que dança música de vários tons e, distraído, deixa que minha alma lhe escape dos olhos e solte-se nua pelos campos.


Mulher no jardim - pintura de Vincent van Gogh

19/05/15

Os ventos indomáveis moram aqui




Os ventos que vieram do norte frio escolheram esta terra para morar.
Eu bem disse à terra que fechasse suas portas e não os deixasse entrar. Mas esta doce senhora que acolhe os que chegam, respondeu-me que não era de bom-tom não abrir a porta às visitas e, recebeu os desaforados que se instalaram e deixaram-se estar por cá.
Fizeram-se senhores desta doce terra e até enxotaram, para o lado, o bom calor que já cá estava.
E sopram e bradam e descabelam, deixando em despreparo toda a gente, que se divertem a empurrar!

São terríveis estes ventos indomáveis!

Às árvores, quando passam por elas a correr, roubam as folhas viçosas com que a primavera as vestiu e jogam ao chão os pequeninos frutos acabadinhos de nascer, que ainda mal se seguram à mãe.
Azucrinam as gaivotas que até voam de lado quando os ventos cismam de lhes soprar.
Entram-nos pela casa adentro, os malcriados! a bater portas e janelas, como se a casa fosse deles! E saem, de novo, a correr antes que os possamos agarrar.

Anda toda a gente desta terra, que era doce, em polvorosa, por conta dos ventos indomáveis, terríveis, malcriados! que querem é roubar-nos o sol, mas pouca sorte hão-de ter, porque esse, é nosso e, já tratou de enviar seus raios doirados que fincaram raízes num lugar secreto, algures por trás da montanha. E esse é segredo que os ventos, por mais que soprem, não conseguirão saber.


14/04/15

Manhãs de abril


As manhãs de abril acordam a sorrir.
Beijam a luz e pedem ao sol
que lhes tire o casaco
com que cobrem os ombros.
São manhãs frescas,
com cara de banho tomado,
até o ar cheira a lavado.
São atrevidas, as manhãs de abril!
Sorriem a todos.
E tanto se entregam ao sol,
como acompanham as nuvens cinzentas
que garantam banhos mil.
Que ninguém leve a mal,
são assim as manhãs de abril.



06/04/15

Bem disse que te-vi



Na casa em que cresci, no Rio de Janeiro, havia quintal e havia jardim, havia borboletas e havia passarinhos.

Não sei como é agora, passados todos estes anos, mas eu sou do tempo – já pareço aquela senhora do anúncio publicitário do hipermercado – em que havia muitas borboletas de todas as cores:
amarelas; azuis; com pintas e sem pintas; com riscas; outras pretas aveludadas e ainda umas outras com duas bolotas enormes nas pontas traseiras das asas, a imitar dois olhos vigilantes...
Para além disso, avistávamos de vez em quando, talvez levada pela aventura de descer da floresta, uma daquelas borboletas gigantes, com aquele seu bater de asas que parecia uma dança em câmara lenta  –  lembrança linda e irrepetível, dessas que guardamos no baú de nossas memórias.

No rol dos passarinhos, tínhamos o beija-flor que tinha um qualquer poder mágico que me hipnotizava.
E tínhamos, ainda, o bem-te-vi que passava a vida a alardear que nos havia visto - “bem-te-vi” – e era o preferido de minha mãe, que contava que na terra dela havia um outro passarinho, primo daquele, que, como era português, cantava “vi-te, vi-te” e, apressado que era, cantava mais depressa que o brasileiro. Claro está, que sempre achei que era história da carochinha.

Mas não é que o vi-te, vi-te existe mesmo! E é ele que tem cantado pra mim, em vez do bem-te-vi da minha infância.
Ao contrário do pássaro que ia ao quintal de minha casa e que eu avistava lá no cimo do coqueiro, o daqui é mais arredio – hoje pela primeira vez, ao fim de todos estes anos, consegui avistá-lo num galho alto duma árvore, a me espreitar e a me avisar: “vi-te, vi-te”.


Eu também o vi.



Interessante foi descobrir que o vi-te, vi-te também existe no Brasil, inclusive no Rio de Janeiro  –  mas esse, nunca foi ao meu quintal...
Quem quiser conferir semelhanças, pode espreitar os links:

* O bem-te-vi pode ser ouvido aqui.

* O vi-te, vi-te pode ser ouvido aqui.

P.S.
Descobri ainda, que Cecília Meireles também se encantou um dia, com o nosso bem-te-vi, de que falou  na sua História de bem-te-vi   eu, apesar de apaixonada por Cecília Meireles, não posso concordar quando sugere que o bem-te-vi deveria estar numa gaiola, mesmo que fosse elegante.
Ele só pode ser feliz, quando no cimo duma árvore bem alta, a nos surpreender com seu canto atrevido.




30/03/15

a teoria cinzenta de minha avó

http://www.wikiart.org/pt/robert-henri/spain-1902


As pessoas antigas, daquelas que vão deixando já de existir no nosso dia-a-dia, como no caso de minha avó, que, a ser viva, já teria completado 101 anos, toda a vida defenderam que a Quaresma era sempre cinzenta, para lembrar aos homens as suas falhas.
Sempre tive minhas dúvidas acerca dessa teoria e mantenho-as, apesar de ser impossível não me lembrar da teoria de minha avó, quando nesta altura, o tempo resolve mostrar-nos sua face cinzenta.
Deste lado do oceano Atlântico, coincidindo esta época com a chegada da primavera, tempo de transição das agruras dum inverno, que não nos querendo deixar, ainda teima em ameaçar-nos, brincando de esconder o sol, é ainda mais fácil contradizer técnica e cientificamente a teoria cinzenta de minha avó.

Mas, com tudo isso, é facto que a Quaresma com tempo nublado leva-nos mais facilmente à circunspecção, independentemente do cariz religioso.
Essa circunspecção acompanhada de reflexão é necessária, não se põe em causa. Mas que seja para construirmos uma técnica de actuação, à semelhança do futebol, para driblar os abismos e conseguirmos a plenitude da vida e não apenas sobreviver ao caos.

Aliada à primavera,em que a natureza parece se espreguiçar depois do interregno a que se deu na estação passada, a Quaresma surge como estímulo para a renovação e o desabrochar.
Se não há quem conteste a sabedoria da primavera que instintivamente se abre em flor, será, por certo, sensato nos permitirmos florir e encher de cor para contrariar os cinzentos da vida.




*nota da bloguista: a ilustração corresponde a uma obra de arte do pintor americano Robert Henri, que viveu entre 1865 e 1929, e foi um dos fundadores da escola Ashcan (Ash Can) - início séc.XX - em que os artistas se especializaram em retratar em suas obras a vida diária de Nova Iorque.

http://www.wikiart.org/pt/robert-henri/spain-1902

15/03/15

Olhos aos céus



Decididamente, tenho que arranjar uma máquina fotográfica que seja pequenina e leve para trazer no bolso e registar os momentos sublimes que se me vão pondo à frente e, especialmente acima da cabeça.

É que, nos últimos dias, tenho sido contemplada com visões extraordinárias.
Na semana passada dei comigo parada no centro duma praça da cidade, extasiada, admirando uma cegonha que planava tranquilamente sobre um prédio.
Dois dias depois, ainda na semana passada, foi um pato desgarrado que sobrevoava o mar apressadamente, já de volta para casa, a ver se fugia à chuva que se aproximava.
Ontem e hoje, novamente os patos, esses maravilhosos voadores de pescoço atirado à frente, a cortar o ar. Exibem alegria: voam e grasnam a anunciar que ali vão - é só levantar os olhos do chão, ergue-los aos céus e vê-los passar.

Sinto-me abençoada.


11/03/15

Próxima estação




Alegrem-se.
Próxima estação: primavera.

O inverno, embora sem vontade nenhuma, já, já há-de ir pregar para outras paragens.
Já se consegue, aliás, vislumbrar um inverno quase em flor.




03/03/15

A chuva




Vem gélida
a chuva.
E cai,
como se aos cântaros,
fosse do céu arremessada.
Encharca a terra,
deixa-a enlameada.
É lama,
lama,
TANTA lama!
E continua
a cair a chuva,
essa chuva tão molhada.
Agora traz consigo
o vento
que vem endiabrado,
maldisposto,
não tem tento.
E corre,
empurra a chuva à frente.

É inverno dobrado.