Mostrar mensagens com a etiqueta SOLIDÃO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta SOLIDÃO. Mostrar todas as mensagens

20/09/15

Até que o tempo passe

https://pixabay.com



Não sei se porque é o tempo
Ou se é porque o tempo deixou de ser.
Corre um tempo em que nem sei se ainda sou.

Há tempo de gritar,

Há tempo de calar.

Há tempo de não olhar sequer o tempo,
Deixar que o tempo passe.




 * Preciso de uma pausa. Quisera que fosse apenas até amanhã. Talvez seja até ao mês que vem... Que o tempo passe depressa.

Um abraço sempre amigo, com o desejo de que, enquanto andarem por aqui, sintam, de alguma forma, a luz do sol a aquecer-lhes a pele e, quem sabe, até consigam ouvir o doce marulhar do mar que tem o dom de apaziguar a alma.

26/04/15

Era um domingo calmo...



Era um domingo calmo, não que tivesse sossego. Aquela era a calma da inércia, que nunca tem pressa para coisa nenhuma. A calma do domingo era da que se veste de mansidão na ânsia de ludibriar os que procuram tranquilidade.
Era um domingo que amanhecera molhado e que agora deixava que o sol morno o enxugasse, embora indeciso entre o sol e a chuva… cheio de reticências e vazio de vontades.

Era um domingo que contagiava a todos com sua lassidão e acreditava que era porque gostavam dele, sem perceber que estavam ansiosos para que se fosse embora, o domingo…



02/02/15

Rostos que não vês



Na estrada da vida,
Sem que se enxerguem,
Tantos rostos se cruzam
Em desencontrados caminhos,
T
R
A
N
S
V
E
R
S
A
I
S
à memória
E aos afectos.

Esses rostos que se cruzam
Sem se verem
Guardam tantas histórias
De que eles não falam,
Que eles não contam.

Os olhos desses rostos
Que se cruzam
Levam alegrias,
Escondem tristezas,
Sabem de lugares bonitos,
De que talvez,
Os teus saibam também,
Mas nunca vais saber,
Porque no cruza que cruza
Desses caminhos desencontrados
Não olhas seus olhos,
Não vês seus rostos, sequer.
                  





17/06/14

O véu negro

https://pixabay.com/pt/fantasma-fantasmag%C3%B3rico-encantado-259671/




O véu negro
aproximou-se de ti
e cobriu-te.
Agasalhou-te.
Seria frio
o que sentias?

Pergunto-me
se sentirias
o toque leve
de sua asa
nessa tua pele
carcomida
pelas agruras
de uma vida errante.
Tanto tempo
sem um carinho...

Seria o aconchego
que ansiavas?
Nem questionaste
quem to oferecia.
Já te seria,
decerto,
indiferente
de quem viria
o alento
que te faltava.

Reconhecerias o rosto
que trazia o véu negro
que te cobriu?
Compreenderias
que ao recebe-lo
não haveria volta?

Terias tu
o abraçado
tanto como ele
te abraçou a ti?
Ou deixarias,
impávido,
que te envolvesse
o terno calor
com que te brindava Tânatos
enquanto te sorvia a vida?




P.S.

A morte chegou-nos à porta e deixou um travo amargo de indignação.

Levou, sem aviso, alguém que nos era muito próximo. Não diria que era uma pessoa muito querida. Mas era, com certeza, mais chegada que algumas muito queridas.

As pessoas assim chegadas são aquelas a quem a vida fez cruzar caminhos próximos ou os mesmos que os nossos e que ocupam um lugar ali, algures entre a família e os amigos.
São pessoas que estão na nossa vida praticamente todos os dias, para o bem e para o mal. São aquelas que nos aborrecem tremendamente, vezes sem conta, mas, na mesma medida, à sua própria maneira, nos dão auxílio nos nossos momentos complicados, mesmo que não pronunciem uma palavra de conforto, por não terem jeito com as palavras.
São aquelas a quem já conhecemos os hábitos mais subtis, o ritmo dos passos, reconhecemos o cheiro e os abraços.
A vida já me deu a triste oportunidade de cruzar com a morte vezes sem conta.
Por mais que tente, não consigo ainda aceitar que chegue em determinadas situações e lugares não só inconvenientes, mas até humilhantes e indignos a uma pessoa de bem.

Uma coisa é ver um corpo preparado com esmero, já depositado numa urna, outra bem diferente é ver um corpo indefeso, na posição em que se deixou ficar no momento em que a morte o surpreendeu e o ser deixou de ser pessoa. O sopro da vida esvaiu-se e restou apenas uma matéria inanimada, desprovida de qualquer reacção, insensível e inalterável na sua posição, como se de um manequim de vitrina de loja se tratasse.

Para quem crê na alma fica a sensação de que a verdadeira essência da vida fugiu num repente. Apetece, então, ir procurá-la para confortá-la.
Para quem apenas crê na matéria fica a dúvida, certamente, sobre o que realmente se terá passado ali, naquele milagre da vida/morte. Apenas química?
Pergunto a mim mesma se naquele lapso de tempo, entre o ser e o não serhaverá tempo para a tomada de consciência. 

Do nosso morto, ainda persegue-me a lembrança de ver o corpo naquela posição inerte e desprovida de fumo de vida com um abraço em suspenso.
Resta-me a incredulidade diante daquele abraço surpreendido pelo fim, que nem teve tempo de desabraçar.

Ou abraçaria a morte?