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25/05/16

Tempo de te amar



Veio o tempo
e o tempo se foi.
E eis que chegou o tempo
em que já
não me resta muito tempo
de ter tempo
e dar tempo
ao tempo.

Se deixo passar
o tempo,
o tempo foge
e fico sem tempo
de ter tempo
de te amar
com tempo.








Este poema tão pequenino saiu-me assim tipo: zás-tráz!
Chegou, de súbito, à ponta do lápis, que quase não lhe conseguia acompanhar o nascer, que era assim como o brotar da água na fonte.
Em menos de um instante já estava cá fora. Meio sem querer, sem buscar palavras, que essas corriam à frente do pensamento.
E de tão pequenino e singelo o poema se fez grande em significado para mim.

Embora saibamos dizer que o tempo é fugaz não o vivemos com a verdadeira consciência da fugacidade.
Porque, para nós, o tempo não passa.
Julgamo-nos eternos e, mais que isso, eternamente jovens, eternamente sãos e eternamente eternos.

E, assim, andamos tão enganados a acreditar ter tempo, tanto tempo…
Porque não vivemos o verdadeiro tempo, aquele tempo que corre e não pára para descansar nem para nos dar tempo.
Vivemos o tempo irreal, o tempo que julgamos que espera por nós.
Prova disso é a construção de planos aos montes que nunca se chega a colocar em prática, num adiar eterno, por uma ou outra razão.
Passamos uma vida inteira a acreditar piamente que ainda vamos a tempo.
- se não for este mês, é no mês que vem.
- se não for no mês que vem, será no outro.
E nisso passa-se um ano.
E passa outro.
E mais outro.
Até que chegue o dia em que nos apercebamos que passou tempo a mais e a gente:
- não fez.
- não foi.
- não visitou.
- não viajou.
- não comprou.
- não viveu.
- não amou.
- não nada do que planeou.

E o tempo acabou.

2010


19/04/16

O tempo em fatias - segundo uma amiga


https://pixabay.com





Hoje, dia de tempo cinzento, tão adequado a fermentar ainda mais, a melancolia que se abate sobre o meu ser, o espírito acorda com vontade de deitar, pedindo ao corpo que se encolha em hibernação, à espera que o tempo passe e, chegue enfim, boa alvorada.




Mas, o blogue também é uma janela de luz, que não vem do sol, mas sim de todos os amigos que nos lêem, às vezes em silêncio, sem se manifestarem, outras vezes, também deixando-nos sua voz.
Quando abro a caixa de comentários da postagem anterior, acerca do “Tempo”, tenho à minha espera um comentário, dentre tantos maravilhosos, que me chama especial atenção e, que ele próprio poderia ser postagem, não só pela dissertação da sua autora (a amiga Emília Pinto, do blog “Começar de Novo” - link do blogue) como também pela citação que faz.
Por isso e por achar que os demais amigos mereciam conhecer seu texto, reproduzo a seguir:




«Ai o tempo, esse senhor tão gentil, dizes tu, Carmem. Dizemos muitas vezes que ele é o nosso melhor amigo...ajuda a cicatrizar feridas, a amenizar dores, a parar tempo do aqui e agora e sorrirmos com algo belo que acaba por nos acontecer. Ele passa a seu tempo, no seu ritmo, mas dá-se por completo a nós, permitindo que façamos dele o que quisermos por quanto tempo quisermos e da maneira que desejarmos. Não podemos dizer que não é gentil. O problema é que nós nem sempre sabemos que o tempo nos pertence e não o aproveitamos com tempo, devagar, sem correrias. É certo que nem sempre o sabemos fazer e mais certo ainda é que no tempo manda a vida e essa vida controla-nos e muito. Mas, chega um tempo em que, apesar de tudo descair e o corpo ficar mais frágil, temos mais tempo para saborear cada instante desse tempo. Claro que temos menos tempo de caminhada, mas o que temos é todo nosso, sem necessidade de o repartir e com muito mais experiência para saber a qual instante deste tempo devemos dar prioridade. . Há um poema que sempre conheci como sendo de Carlos Drummond de Andrade, mas parece que não é e que gostaria de aqui deixar, se me permitires. Bem... aqui vai:



CORTAR O TEMPO


Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente...


de: Roberto Pompeu de Toledo 
(segundo li na net )




Acho interessante este cortar o tempo em fatias. Não precisamos de o cortar em anos, meses ou até semanas; podemos cortar o tempo que ainda temos em fatias mais fininhas e a cada amanhecer saborear uma delas, deixando a outra para o novo começar se ainda formos a tempo. Apreciaremos cada fatia com mais vagar, com mais tempo, com mais sabor.»



Emília




14/04/16

O tempo, tão gentil




O tempo,

esse senhor que não detém grande predicado, deixou-te, na sua passagem, sem embrulho nem laço, que tudo serve ao embaraço, a quezília com a gravidade que impera sobre teu corpo e ordena que tudo desça um andar:

descem os sonhos em cheia catadupa, a tropeçarem uns nos outros na ausência das concretizações, alheios às querenças, soterrados pelo marasmo dos dias atolados de prioridades;

descem os ombros que outrora ergueram o mundo, suportaram a faina e carregaram os filhos, agora caídos na leveza do nada;

descem os seios que aconchegaram o bater de corações e alimentaram gerações, agora tombados no desquerer;

desce o nariz que apontou ao céu, que não lhe apagou as certezas, que não lhe retirou o garbo, agora derrubado pela descrença;

descem os lábios que abriram sorrisos, cantaram vitórias, encerraram segredos e agora descem em trilhos vincados pelas respostas caladas, injúrias sofridas e cantigas esquecidas;

desce tua própria vida, no tempo perdida… assim, meio que descaída…