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17/05/15

As nossas dores



Nós somos uma alma marcada por cicatrizes que vamos acumulando no nosso percurso.
Porque as perdas são várias. Algumas marcam bem fundo, como feitas a estilete e, deixam cicatriz que nunca desvanece, porque a dor da perda quer fidelidade e parece ter medo que esqueçamos que ela foi nossa um dia.

Há perdas que semeiam em nós dores que nos fazem chorar baba e ranho durante dias, semanas, meses a fio! e depois, acompanham-nos durante todo o resto da vida. Às vezes, parecem meio adormecidas. Mas apenas até que uma voz, ou melodia, ou um qualquer cheiro as acorde. E aí, acordadas desse entorpecimento do sono voltam a latejar com a força de início e, é difícil tornar a aconchega-las no regaço e fazê-las adormecer.

As nossas perdas, essas, ninguém as sente, nem sofre por nós.
Nada as colmata, a não ser nós mesmos, quando, depois do ranho todo cá fora, inspirarmos fundo e nos vier a vontade de sobreviver.




11/02/15

Carta de despedida



Já contei trinta anos desde o dia em que te foste, numa partida em que não nos permitiram a despedida.
Pergunto-me ainda hoje, como consentiste em ir sem deixar que eu olhasse teus olhos uma derradeira vez para reter na memória essa luz que enchia de serenidade a minha vida.
Foste e levaste-as contigo: à luz de teus olhos e à serenidade que conheci um dia.

Trinta anos passaram, tanto ficou por dizer… Tanto ficou por amar.
Questiono-me – se já se foi tanto tempo, por que não foi de mim esta dor que ainda me aperta o peito e me amarra a garganta num nó doído, de cada vez que não te sinto a meu lado?
Por que não foi de mim esta amargurada ânsia de bradar e de bater a quem te levou de mim?
E tu? Se prometeste estar sempre a meu lado, porque alçaste tuas asas naquele voo súbito e me deixaste aqui? Eu que não tinha asas, que não sabia voar… Eu que não sabia seguir-te, esperei que regressasses…
Esperei a noite toda, uma noite tão longa e escura, onde as estrelas não brilharam porque estavam de luto, também elas. E nessa noite longa e escura, onde as estrelas não brilhavam, o céu, até ele chorava, condoído de ver meu choro, ora pranto, ora choro calado, eterno lamento…

Só tu não entendeste que devias voltar, porque era a meu lado, o teu lugar.
Não voltas, realmente?
É para sempre a partida?

O que tem a morte de tão fascinante que te seduziu a ponto de me abandonares? Essa vadia enfarruscada que se esconde nas sombras, que cobiça a todos… o que, de tão fascinante te sussurrou ela, ao ouvido naquela noite, que te convencesse a segui-la? Insensato! Tão volúvel foste a seguir essa desconhecida e deixar-me aqui, tão só. Eu que não tinha asas, que não sabia voar, que nem conhecia o caminho…




24/01/15

Gostava que estivesses aqui

Gostava
que estivesses aqui,
mas não estás.
Há muito
que não estás.
Ter-te a meu lado
é coisa de outra vida.
Uma vida
que ficou algures,
perdida
num tempo
que estes anos
afastaram de mim.
Ter-te a meu lado
já não é coisa
que guarde
nas prateleiras
da lembrança.
Ter-te a meu lado
parece que foi sonho
que tive um dia.
Desses sonhos,
de tantos,
que a gente
tem na vida,
de que ficam
apenas
fragmentos
esfumados
espalhados
nos cantos
do nosso ser.
Gostava
que estivesses aqui.
Gostava
de, enfim,
ter-te a meu lado.
Gostava
de poder
olhar
teus olhos,
uma vez que fosse.
Esses olhos
que me olhavam
como mais
nenhuns
olharam.
Gostava
de poder falar-te.
Gostava
de poder ouvir
o que tinhas
para me dizer,
que fiquei
sem saber.
Faz tanto tempo,
que não sei
se vivi-te
ou se sonhei-te.


12/07/14

As flores mais belas são para ti



Quisera um dia
as mais belas flores
para tas ofertar a ti, meu amor.
E as mais belas flores
que encontrava     
foram tuas, amor querido.
Queria eu,
na beleza das flores,
mostrar-te o quanto
era grande o meu amor.
E o quanto amava eu
o teu sorriso.

Quisera um dia
conseguir
combinar o colorido das flores
com a cor desse teu sorriso
ao recebê-las.
Hoje,
procuro as flores mais belas
para tas levar.
Mas já não me estendes as mãos,
naquela alegria
que combinava tão bem
com as flores garridas.
Hoje,
procuro
as flores mais belas
para depositar na pedra quente,
rescaldada do sol,
que guarda
o que restou
de ti.

E,
continuo à procura
das flores mais belas.

E as flores mais belas
que encontro,
embora
continue eu
a dizer
que são para ti,
talvez não sejam
mais que um colmatar
a falta que me fazes.
Talvez não passem
duma insana forma
de te ter aqui.       





09/05/14

Quando um dia



https://pixabay.com/pt/photos/?image_type=&cat=&min_width=&min_height=&q=por-do-sol&order=popular


Quando um dia chegar em que eu já não exista mais ao teu lado, quando eu já não respirar mais este ar, quando os meus olhos não enxergarem mais, quando a minha boca destravada finalmente se calar e os meus ouvidos sempre atentos não ouvirem…

Quando eu, por fim, não viver mais: recorda-me.


Eu quero existir nos teus pensamentos, na tua memória.
Por isso quero que memorizes cada um dos nossos momentos…
Quero ver
através dos teus olhos. 
Quero falar por tua boca.

Quero que tu não deixes que minha vida se perca na morte.
Quando tu olhares as coisas que eu te mostrei e te dei a conhecer,
quando admirares as paisagens mais belas
ou as cenas comuns da vida que eu te ensinei a apreciar,
eu estarei ‘vendo’!

Quando tu falares com outros sobre temas que eu contigo falei,
ou explicares aquilo que te foi explicado por mim,
eu ‘estarei falando’!

Quando ouvires as mesmas músicas que ouvimos juntas,
ou parares para saborear o canto da natureza que eu fartei-me de te querer provar ser a mais bela orquestra…
Aí, eu estarei ‘ouvindo’!

Quando tu passares adiante tudo o que eu conheci e passei a ti, terá então, valido a pena.
Quando tu aplicares em coisas práticas, aquilo que te ensinei ao longo dos anos…
quando falares em mim,
quando pensares em mim…
eu viverei!  


novembro/1990


01/08/10

Eu vim de longe


https://pixabay.com

Eu vim de longe
há tanto tempo,
que nem bem sei
se vim,
ou se sonhei.
Terá sido sonho
ter vindo de onde vim?
Ter vivido o que vivi?
Ter visto o que vi?
Terá sido nesta
ou em outra era?
Ou será apenas…
doce quimera?
Terei deveras conhecido
o que nunca vejo?
Ah, doce devaneio!
Se a mera palavra
não atesta a outrem
meu real viver,
pois se nem punhado
trago na mão,
do que
vi,
ouvi,
cheirei
da vida
que já nem eu sei
se vivi
ou se sonhei.
Que gritem então,
essas vozes
que outrora amei.
Que me reencontre
esse céu
que me abrigou.
Que me chegue
às arfantes narinas
o cheiro quente
da terra que pisei.
E que possam, então,
austeros provar
a estes
que desdenham
de minha prosa,
que um dia
fui vossa!
Que não foi sonho
meu viver,
que não foi delírio
meu distante amar.