26/07/15

Quando Agosto chegar




Quando Agosto chegar,
há-de vir cheio de sorrisos,
beijos, abraços
e vozes sobrepostas, em alarido.
Pedirá o tilintar dos brindes.
Anunciará conquistas.
Trará a fé recuperada nas poeiras e,
cobrará promessas.
Ordenará ao vento para que
levante o calor da tarde
e deixará que se divirta,
a roubar o sossego ao espanta-espíritos
que mantenho na varanda.
Talvez o vento não espante os espíritos alheios,
mas, deixará, decerto,
o meu em sobressalto,
ainda à espera de te ver a entrar.
Quando Agosto chegar
trará o fogo
para aquecer as areias
que me hão-de queimar os pés
e atiçar a paixão.
Agosto das horas compridas
trará as memórias só minhas e tuas,
de dedos entrelaçados
e dos beijos salgados
àquela hora da tarde
em que o sol lambe o mar.



18/07/15

Deixa...




Trabalho é o que te espera,
pois que cultivar e gerar é a tua herança.
Deixar que a terra germine a semente,
permitir às entranhas que gerem um filho
que leve teu sangue para além de ti.
Pois dita a lei que perpetues a espécie.
Mas não ouses crer
que o filho de ti gerado
caminhará à sombra de teus passos.
É preciso que lhe soltes as amarras
para que navegue seu próprio mar,
para que lavre sua própria terra,
algures, longe
do teu protector regaço.
É preciso
que seu coração conheça as lágrimas
e seus olhos
alcancem vistas por ti desconhecidas,
que seus gritos
ecoem em altos montes,
que seus pés trilhem
por caminhos ainda não percorridos.
Não te lamentes.
Deixa que corra;
deixa que ame;
deixa que sofra;
deixa que erga castelos
que outros venham a destruir.
A glória não nasce em casa fechada.
Que se abram as portas e portões,
que se aponte ao horizonte.
Que se ouse perder
para ganhar.
É tempo de ver partir.




13/07/15

A solidariedade de uma Europa que se chama União



Se os governantes tivessem a sensibilidade do poeta...
talvez a união dos povos não fugisse a galope num cavalo preto,
talvez todos marchassem juntos, a saber para onde.



Afinal, já não se trata de fazer contas, mas de prestar contas a uma Europa que quer vingança por a Grécia ter tido o desplante de insubordinar-se contra as regras propostas.
Não se nega aqui, as culpas da Grécia nesta crise catastrófica.
Tem culpas, como também tem Portugal, pela sua própria calamidade que, ai de nós! o que temos passado.
Os gerentes destas casas não se portaram como o esperado e levaram-nos a todos pela ladeira abaixo. Mas, adiante.

Agora (só agora?) dizem que a situação da Grécia é uma questão política, pois que, após o tão malfadado referendo, adoptou postura menos radical e reformulou sua proposta, cedendo a algumas exigências que levam a mais austeridade e, esbarrou numa Europa que não quer entender o que até o FMI já concluiu: a dívida grega não é sustentável.

Para a Alemanha, Suécia, Finlândia e Dinamarca:  negociação = não fazer cedências.

Os princípios que levaram à união da Europa e que pretendiam promover o bem-estar de seus povos baseado na solidariedade parece esquecido.

Por sua vez, a França tem sido aliada da Grécia em busca de uma solução cabal.
Até que ponto não será este apoio, prejudicial para a Grécia, pois que, neste sábado, o ex-ministro das Finanças da Grécia Yanis Varoufakis afirmava que a "Alemanha queria a saída do seu país da união monetária para intimidar a França e a fazer aceitar o seu modelo de uma zona euro disciplinar".   (fonte)
Que interesses calados se escondem na intransigência?

Em Fevereiro deste ano, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker admitia que "pecou-se contra a dignidade dos cidadãos de Portugal, Grécia e Irlanda".
E acrescentou que "era preciso aprender lições e não cometer os mesmos erros".
Agora, sente-se traído porque, afinal, a Grécia não se governa apenas de "amor".


Drummond, se cá estivesse, diria: "E agora, Grécia?"