Segundo o filósofo Immanuel
Kant a mentira é inadmissível e torna o Homem indigno.
Como em tudo ou quase tudo nesta vida, esta linha de pensamento não é consensual e há filósofos que aceitam a ética da mentira.
A mim esta linha de raciocínio de Kant agrada e penso que aplica-se lindamente à situação que ocorreu em Dezembro de 2012, quando, numa corrida em Navarra, Espanha, o corredor queniano Abel Mutai liderava a prova e, a poucos metros da linha de chegada, confundiu-se com a sinalização e deu a corrida por terminada, diminuindo o ritmo e sem se preocupar com a aproximação do espanhol Ivan Fernandez Anaya.
Foi quando o corredor espanhol, que poderia, simplesmente, ter acelerado e terminado a prova em primeiro lugar, surpreendeu o mundo ao chamar a atenção do queniano, a gritar-lhe, avisando-o do lapso e a empurrar o atarantado atleta para a frente, para que cruzasse a meta à sua frente.
Foi quando o corredor espanhol, que poderia, simplesmente, ter acelerado e terminado a prova em primeiro lugar, surpreendeu o mundo ao chamar a atenção do queniano, a gritar-lhe, avisando-o do lapso e a empurrar o atarantado atleta para a frente, para que cruzasse a meta à sua frente.
Por quê? – perguntaram-lhe.
E Ivan Fernandez Anaya respondeu:
"Ele ia ganhar. Eu não merecia vencer".
Se ultrapassasse a meta em primeiro lugar, sua vitória seria uma mentira.
Isto é honestidade, ética, verdade.
O filósofo Mário
Sérgio Cortella define ética como sendo “um conjunto de valores e princípios
usados pelos indivíduos para a decisão de três grandes questões inerentes à
vida, que são: quero, devo e posso”.
Todos sabemos, desde
tenra idade e, ensinamos também a nossos filhos que as coisas à nossa volta se
dividem em três grandes grupos:
- o que eu quero e posso;
- o que eu quero mas não posso;
- o que eu posso mas não quero.
Daí, uma das
primeiras frases de ensinamento que a criatura ouve é:
“não pegarás o que não te
pertence” → queres mas não podes.
A expectativa de
obter o objecto de desejo poderá gerar uma série de conflitos interiores.
A opção é tomada tendo
em consideração os princípios pelos quais o indivíduo rege as suas atitudes: a ética.
Se tiver como
princípio ético “ não pegar no que não lhe pertence”, com certeza não o fará.
Mas... e se o indivíduo
se reger por outros princípios?
Os seus princípios
não vão de encontro àqueles que regem a maioria dos indivíduos. Segundo o
filósofo Cortella não há ninguém sem ética, o que há é “uma ética contrária à
nossa”.
Aliás, também é sua a
definição bem despretensiosa, apresentada no livro “Ética e vergonha na cara”, editado
em parceria com Clóvis de Barros Filho (professor especializado em Ética,
advogado e jornalista):
“ética tem a ver com vergonha na cara, com decência”.
E esta, hein?
Ou seja, há criaturas
a quem a falta de vergonha não afecta o passo,
não tira o sono
nem acrescenta rugas.
não tira o sono
nem acrescenta rugas.
Simples assim.
E há as que acreditam
em Clóvis de Barros Filho quando diz:
“Ser ético exercita o espírito”.
Ao ver este vídeo, não pude deixar de lembrar de alguns de nossos jovens que gostam de alegar que
"fazem/usam/querem ... porque toda a gente faz/ usa/quer."
Mas, para além de nós, pais e educadores, o filósofo Cortella também assevera que:
"Não é porque o outro faz que eu tenho que fazê-lo do mesmo modo."
