17/06/14

O véu negro

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O véu negro
aproximou-se de ti
e cobriu-te.
Agasalhou-te.
Seria frio
o que sentias?

Pergunto-me
se sentirias
o toque leve
de sua asa
nessa tua pele
carcomida
pelas agruras
de uma vida errante.
Tanto tempo
sem um carinho...

Seria o aconchego
que ansiavas?
Nem questionaste
quem to oferecia.
Já te seria,
decerto,
indiferente
de quem viria
o alento
que te faltava.

Reconhecerias o rosto
que trazia o véu negro
que te cobriu?
Compreenderias
que ao recebe-lo
não haveria volta?

Terias tu
o abraçado
tanto como ele
te abraçou a ti?
Ou deixarias,
impávido,
que te envolvesse
o terno calor
com que te brindava Tânatos
enquanto te sorvia a vida?




P.S.

A morte chegou-nos à porta e deixou um travo amargo de indignação.

Levou, sem aviso, alguém que nos era muito próximo. Não diria que era uma pessoa muito querida. Mas era, com certeza, mais chegada que algumas muito queridas.

As pessoas assim chegadas são aquelas a quem a vida fez cruzar caminhos próximos ou os mesmos que os nossos e que ocupam um lugar ali, algures entre a família e os amigos.
São pessoas que estão na nossa vida praticamente todos os dias, para o bem e para o mal. São aquelas que nos aborrecem tremendamente, vezes sem conta, mas, na mesma medida, à sua própria maneira, nos dão auxílio nos nossos momentos complicados, mesmo que não pronunciem uma palavra de conforto, por não terem jeito com as palavras.
São aquelas a quem já conhecemos os hábitos mais subtis, o ritmo dos passos, reconhecemos o cheiro e os abraços.
A vida já me deu a triste oportunidade de cruzar com a morte vezes sem conta.
Por mais que tente, não consigo ainda aceitar que chegue em determinadas situações e lugares não só inconvenientes, mas até humilhantes e indignos a uma pessoa de bem.

Uma coisa é ver um corpo preparado com esmero, já depositado numa urna, outra bem diferente é ver um corpo indefeso, na posição em que se deixou ficar no momento em que a morte o surpreendeu e o ser deixou de ser pessoa. O sopro da vida esvaiu-se e restou apenas uma matéria inanimada, desprovida de qualquer reacção, insensível e inalterável na sua posição, como se de um manequim de vitrina de loja se tratasse.

Para quem crê na alma fica a sensação de que a verdadeira essência da vida fugiu num repente. Apetece, então, ir procurá-la para confortá-la.
Para quem apenas crê na matéria fica a dúvida, certamente, sobre o que realmente se terá passado ali, naquele milagre da vida/morte. Apenas química?
Pergunto a mim mesma se naquele lapso de tempo, entre o ser e o não serhaverá tempo para a tomada de consciência. 

Do nosso morto, ainda persegue-me a lembrança de ver o corpo naquela posição inerte e desprovida de fumo de vida com um abraço em suspenso.
Resta-me a incredulidade diante daquele abraço surpreendido pelo fim, que nem teve tempo de desabraçar.

Ou abraçaria a morte? 









09/05/14

Quando um dia



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Quando um dia chegar em que eu já não exista mais ao teu lado, quando eu já não respirar mais este ar, quando os meus olhos não enxergarem mais, quando a minha boca destravada finalmente se calar e os meus ouvidos sempre atentos não ouvirem…

Quando eu, por fim, não viver mais: recorda-me.


Eu quero existir nos teus pensamentos, na tua memória.
Por isso quero que memorizes cada um dos nossos momentos…
Quero ver
através dos teus olhos. 
Quero falar por tua boca.

Quero que tu não deixes que minha vida se perca na morte.
Quando tu olhares as coisas que eu te mostrei e te dei a conhecer,
quando admirares as paisagens mais belas
ou as cenas comuns da vida que eu te ensinei a apreciar,
eu estarei ‘vendo’!

Quando tu falares com outros sobre temas que eu contigo falei,
ou explicares aquilo que te foi explicado por mim,
eu ‘estarei falando’!

Quando ouvires as mesmas músicas que ouvimos juntas,
ou parares para saborear o canto da natureza que eu fartei-me de te querer provar ser a mais bela orquestra…
Aí, eu estarei ‘ouvindo’!

Quando tu passares adiante tudo o que eu conheci e passei a ti, terá então, valido a pena.
Quando tu aplicares em coisas práticas, aquilo que te ensinei ao longo dos anos…
quando falares em mim,
quando pensares em mim…
eu viverei!  


novembro/1990