31/08/16

O erotismo

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Gosto do erotismo das palavras doces
que me chegam pelos ouvidos devagar,

bem

devagar...

Para dar tempo à alma para as descascar,
como se descasca uma manga madura sumarenta a pingar de doce...

E saborear devagar,


bem



    devagar...




22/08/16

Razões para escrever não faltam



O escrever, que também eu tantas vezes o percorro com passos desajeitados tropeçando ora em auroras, ora em quase abismos, eu o dividiria em dois grandes caminhos: o trabalhado e suado, que segue tema pré-determinado e o genuíno, que ultrapassa vontades, aquele que nasce algures nas entranhas do ser.

Esse, o que marca o estilo, o que dita o tema, é um grito sem elevar a voz, que pode bradar e escancarar-se em silêncio.

É a alma, senhora de si, ainda que o corpo esteja atado,
que canta seus amores,
que chora seus lamentos,
que solta sua indignação,
que brada aos céus seu infortúnio
e espanta a saudade.

Escrever é deixar aflorar a voz da alma, que explode em catadupa de emoções sem vírgulas nem freios e traduzi-la em palavras, organizar-lhe as frases e compor o texto que falará de mim, do outro, de tantos e do ninguém, de tudo e do nada.
Depois da voz da alma ser escrita, restará àquele que ler escolher a interpretação, segundo sua própria alma.




* a partir do desafio lançado por Miss Smile do blogue "Notas de Chá" aqui
Aí, pode-se descobrir mais umas tantas razões de escrever. Serão tantas quantas são as almas que gostam e/ou precisam da escrita.


09/08/16

Quanto vale não ser o primeiro?



Segundo o filósofo Immanuel Kant a mentira é inadmissível e torna o Homem indigno.

Como em tudo ou quase tudo nesta vida, esta linha de pensamento não é consensual e há filósofos que aceitam a ética da mentira.

A mim esta linha de raciocínio de Kant agrada e penso que aplica-se lindamente à situação que ocorreu em Dezembro de 2012, quando, numa corrida em Navarra, Espanha, o corredor queniano Abel Mutai liderava a prova e, a poucos metros da linha de chegada, confundiu-se com a sinalização e deu a corrida por terminada, diminuindo o ritmo e sem se preocupar com a aproximação do espanhol Ivan Fernandez Anaya.
Foi quando o corredor espanhol, que poderia, simplesmente, ter acelerado e terminado a prova em primeiro lugar, surpreendeu o mundo ao chamar a atenção do queniano, a gritar-lhe, avisando-o do lapso e a empurrar o atarantado atleta para a frente, para que cruzasse a meta à sua frente.
Por quê? perguntaram-lhe.
E Ivan Fernandez Anaya respondeu:
"Ele ia ganhar. Eu não merecia vencer".

Se ultrapassasse a meta em primeiro lugar, sua vitória seria uma mentira.
Isto é honestidade, ética, verdade.





O filósofo Mário Sérgio Cortella define ética como sendo “um conjunto de valores e princípios usados pelos indivíduos para a decisão de três grandes questões inerentes à vida, que são: quero, devo e posso”.

Todos sabemos, desde tenra idade e, ensinamos também a nossos filhos que as coisas à nossa volta se dividem em três grandes grupos:
  • o que eu quero e posso;
  • o que eu quero mas não posso;
  • o que eu posso mas não quero.
Daí, uma das primeiras frases de ensinamento que a criatura ouve é:

“não pegarás o que não te pertence”     queres mas não podes.


A expectativa de obter o objecto de desejo poderá gerar uma série de conflitos interiores.

A opção é tomada tendo em consideração os princípios pelos quais o indivíduo rege as suas atitudes: a ética.
Se tiver como princípio ético “ não pegar no que não lhe pertence”, com certeza não o fará.


Mas... e se o indivíduo se reger por outros princípios?


Os seus princípios não vão de encontro àqueles que regem a maioria dos indivíduos. Segundo o filósofo Cortella não há ninguém sem ética, o que há é “uma ética contrária à nossa”.


Aliás, também é sua a definição bem despretensiosa, apresentada no livro “Ética e vergonha na cara”, editado em parceria com Clóvis de Barros Filho (professor especializado em Ética, advogado e jornalista):

“ética tem a ver com vergonha na cara, com decência”.


E esta, hein?

Ou seja, há criaturas a quem a falta de vergonha não afecta o passo,
              não tira o sono
                                    nem acrescenta rugas.
Simples assim.


E há as que acreditam em Clóvis de Barros Filho quando diz:

“Ser ético exercita o espírito”.



Ao ver este vídeo, não pude deixar de lembrar de alguns de nossos jovens que gostam de alegar que  
"fazem/usam/querem ...  porque toda a gente faz/ usa/quer."


Mas, para além de nós, pais e educadores, o filósofo Cortella também assevera que:
"Não é porque o outro faz que eu tenho que fazê-lo do mesmo modo.