19/11/14

Os antigos filósofos hindus acreditavam que a Terra é eterna



E nós também


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«Deus disse: “Que a terra produza relva, vegetação que produza semente, árvores que dêem fruto segundo a espécie, cuja semente esteja nele.”»
«E assim se fez… E Deus viu que era bom.»
«E Deus criou… os seres vivos que deslizam e vivem na água… e criaturas voadoras… E Deus viu que era bom.»
«E Deus disse: “Que a terra produza seres vivos conforme a espécie de cada um...”»
«E Deus viu que era bom.»
«Então Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os seres do mar, os seres do céu… e todo animal que se mova sobre a terra…”»
«Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom.»
( Gênesis )

 
E assim nasceu o Homem, que se tornou dono e senhor absoluto de toda a Terra.
O Homem que quis ser Deus, comandando toda a vida, e não só! Também quis   comandar toda a fonte de onde pudesse se prover de recursos para abastecer suas necessidades e vontades.
O Homem que quis ser Deus julgava que tudo era inesgotável.
Não sabia que TUDO poderá ser NADA, um dia.

O Homem, que alguns homens iluminados classificam como a pertencer ao reino Animal, ao subfilo dos Vertebrados, à classe dos Mamíferos...

Leram bem, sim! Reino ANIMAL, sim!!!

E mais: diz-se que se diferenciam dos outros por serem animais racionais, dotados de inteligência, supõem-se que raciocinem. Isto é: para além de existir, fazer e desfazer,  consta que pensam! Essencial seria que pensassem em permitir aos outros que, também eles existam.
Ou seja, podemos concluir que, ao fim das contas, este Homem que quis ser Deus, não passa de um bicho Homem!
E o bicho Homem teve a sorte de ser abençoado com uma inteligência que, infelizmente, não soube dominar com mestria.

Ao contrário de Deus criador, o bicho Homem não soube“ver que tudo era bom” e que merecia ser bem cuidado para perdurar.

2010

 

 

Nota: 
Fui buscar lá atrás, este texto que considero actual. E que será sempre, para nossa tristeza.

17/11/14

A Dor



A Dor entranha-se
em cada pedaço de célula.
Instala-se,
faz-se dona deste corpo
que não é dela.

Mas quer lá saber.
Licença não existe
para ser pedida,
mas para fazer
a poucos
acreditar
que limites existem
para quem tem que os respeitar.

Dor não tem limite.
Dor não tem respeito.
Dor não pede,
mas apodera-se!
Dor não conhece o direito.

E eu?
Eu sou presa da Dor.
Sou a que
não lhe conhece o limite.

Não tenho direito,
não conheço o respeito,
não sei pedir,
pois sei que não há que receber.
Mantenho-me aqui,
sei
que não há para onde ir.

2012


15/11/14

Simão



Simão foi. Já não é. Não estava destinado a ser, chego eu a essa conclusão.
Simão nasceu cão. Tolo que nem ele só. Raça pura ou vira-lata, não lhe interessou nunca. Era um cão e como tal se portava.
Era pequeníssimo, tanto, que muitas vezes eu nem o via. Chamava-o e, quando furiosa por ele não vir ao meu chamado, me virava já barafustando, dava de cara com ele sentado, a olhar para mim com aquela cara só dele, de "não vês que já cá estou? És tola ou quê?" E eu passava-me da cabeça. 

Na praia ninguém ficava indiferente à presença de Simão: ele não se deixava passar despercebido, apesar do pouco tamanho. E sua maior felicidade era correr para o primeiro ser que visse e saltar, saltar, como se quisesse compensar com isso, sua pequenez.
Toda a gente se encantava e ele se encantava com toda a gente. Mesmo os cães enormes com cara de poucos amigos, que de início paravam a olhar aquela coisinha aos saltos, acabavam por disparar com ele em corridas fantásticas pelo areal.

Houve uma manhã, que vai ficar na história das nossas vidas, em que ele cruzou na areia com uma cadelinha pequenita pinscher. Foi uma loucura!
Mal se aproximou o Simão, o dono da cadelita assustou-se com a abordagem deste e, muito nervoso e a dizer muito aflito que a dele era "uma cadêlinha" (o circunflexo é para melhor descrever a maneira querida como o senhor chamava o seu ser-amado), o que, para ele, deveria significar: "ela é uma relíquia e este desastrado rafeiro ainda a destrói"... 
Eu, educadamente, ainda tentei acalmar o senhor dizendo que Simão também era apenas um cãozinho: só tinha seis meses.
Mas, estava eu e minha filha a tentarmos acalmar o homem quando, não sei o que Simão disse ao ouvido da cadêlinha que, de repente, desataram os dois a correr, como já nos era habitual ver.
Mas o senhor não estava acostumado àquilo. Enervou-se tanto. Deu de correr atrás dos dois cães que agora já andavam aos círculos,  alegres como lhes era de direito.


Diante de minha mais pura estupefacção, a dada altura, o senhor deu de se atirar num salto destemido, à guarda-redes (goleiros) quando para deter a bola, mas a ânsia dele era segurar a cadêlinha. E ai! que caiu estatelado de cara na areia enquanto os outros dois prosseguiam na brincadeira, só a parar quando eu consegui segurar Simão, ficando então, a cadêlinha perfeitamente incólume a olhar, parada na areia, para o colega já no meu colo.


O homem levantou-se dum salto, agarrou a cadêlinha"ai, meu Deus! o coração dela está aos saltos." 

E eu ainda a ver se o acalmava: "É natural, andou a correr divertida..."

"Ai, a minha cadêlinha... ai o coraçãozinho dela..."

"Ó homem! Este também tem o coração aos saltos!" - e agarrei-lhe a mão para que sentisse o bater corrido dentro do peitinho do meu Simão...

Ai vida. Ai homens e suas cadêlinhas. 

Só uma coisa assustava o Simão: o mar. Talvez por culpa minha, pois eu  morria de medo que ele fosse nas ondas e gritava com minha filha, sempre quando o mar chegava mais perto.
Então depois era ele que corria, que fugia, quando via a onda a chegar...

Com o mar ele não queria nada.

Pois Simão acabou.
E levou um bocadinho da gente com ele.
em 2011


 Nota: Na falta de foto de Simão, que na altura, foram todas apagadas, talvez erradamente, na estúpida crença de que o que os olhos não vêem, o coração esquece,  uso uma foto de um dos meus sites de eleição, como sempre, devidamente linkado. 
Poderia ter escolhido uma outra qualquer, mas esta é a que melhor se assemelha "ao sorriso" de Simão, na sua vivacidade.

Simão existiu de verdade, e era tolo de verdade. Sua energia era inversamente proporcional ao seu minúsculo tamanho. Imparável. Incontrolável. Levando esta mulher aos píncaros do desespero muitas vezes, para delícia de quem mais o amava: a filha, que o levava para todo o lado, na mochila, onde ele se deixava transportar sempre de bom grado e "sorriso" aberto.
Talvez adivinhasse que o tempo lhe era escasso.
Morreu com míseros oito meses.

Morreu por imprudência, irresponsabilidade ou pura ignorância de alguém (porque existem pessoas, que não adianta a gente tentar sensibilizar, ensinar: simplesmente não sabem aprender. E admito, também culpa minha, que, em algum momento quebrei a guarda) que, para se precaver contra roedores indesejáveis, deixou veneno (raticida) onde não devia, sem as devidas precauções (em armadilhas: caixas próprias, compridas e com aberturas em tamanho pequeno, apropriado apenas para entrada dos roedores, onde se deposita o veneno no fundo, de maneira a que gatos e cães não possam alcançar e comer). 

O animal que ingere estes raticidas, segundo ensinou o veterinário, na altura, aguenta dois dias ou até mais, sem dar sinais de que está envenenado.
Se ninguém se apercebe do envenenamento, e não age nas primeiras horas, quando ainda há alguma possibilidade de tratamento, o envenenamento é fatal. Pode saber mais aqui.

Este texto sobre Simão já havia sido publicado anteriormente quando o blog ainda era o "Filosofando em cima da bicicleta", e estava em rascunho, como outros, quando da mudança para o atual "Do lado do Sol"
Agora, achei que era hora de busca-lo novamente, ao ler as dicas dos "cuidados a ter com o seu cão no outono" no blog de Brown Maria, aqui