23/07/10

Eu falei com Deus…






É daquelas coisas que acontecem sem que ninguém esteja à espera que aconteçam.
Aparecem do nada, pura e simplesmente.
E deixam a pessoa desbundada.
Tal e qual! Era a expressão usada por um professor que eu tive e que se aplica na perfeição àquela situação em que se fica assarapantado, diante de algo que nos é ininteligível de todo.
Foi assim que me senti: completamente desbundada, diante daquele casal de irmãos que me entrou porta adentro com uma confiança que assombrava.
Muito asseados e bem trajados na sua simplicidade.
Ela pouco mais nova, preocupada em aprumar o porte tentando, talvez, com o seu endireitar de costas, mostrar-se mais madura a fim de obter mais respeito ou, pelo contrário, apenas enxotar a vergonha.

Queriam falar com a directora.

Quando perguntei de que se tratava, o rapaz respondeu que ele e a irmã precisavam muito falar-lhe.
Diante de meu silêncio face a tão elucidativa resposta, os dois entreolharam-se. Consegui que acrescentassem que tinham um problema.
Apressei-me a esclarecer que não queria saber detalhes, mas que precisava adiantar à directora o assunto que os trazia. Pois sem uma razão bem fundamentada ela não os receberia.
A irmã que, a esta altura, segurava bem segura a alça da bolsa que trazia ao ombro suspirou.
O rapaz, futuro homem, pareceu-me à beira de impacientar-se: o problema é com a mãe - respondeu, por fim.

Ele, que começara com poucas e medidas palavras, avançou sem medo, a ensaiar para o homem que haveria de ser um dia.
Aliás, não se tratava de um problema da mãe, era na verdade um problema de família! - argumentavam os dois, agora em uníssono.
Diante da confusão que se deve ter estampado em meu rosto, pois que por esta não estava eu à espera, ele concluiu: precisamos falar à directora para saber se ela arranja um trabalho à nossa mãe.
Ela anda desesperada: já trabalhou como cozinheira lá, naquele restaurante da esquina. Mas trabalhava muitas horas, nunca tinha uma folga e no fim nem lhe pagavam direito. - ele falava quase sem respirar, saía tudo num fôlego só, como se estivesse, há muito, ali guardado à espera de saltar cá para fora, à primeira oportunidade.

E seguiu desfiando o rosário de infortúnios da mãe.

A cada frase dele eu sentia-me mais encolhida na minha cadeira, sem saber bem o que lhe dizer e, sem saber se havia de interromper aquele desenfrear de palavras daquele menino tão homem.
A irmã assentia com a cabeça, a reforçar o que o irmão dizia.

Fiquei a saber que haviam vindo por iniciativa própria, sem que a mãe soubesse, quando ela saíra de casa num rumo oposto, à procura de trabalho.
Soube também, que a mãe estava inscrita no Centro de Emprego, mas não recebia subsídio de desemprego porque nunca fizera descontos.
E soube ainda que o pai abandonara a família quando eram pequenos.
Havia um terceiro irmão mais velho que era quem, até então, lhes valia, mas fora despedido e ia tentar a sorte no estrangeiro.

E, pelo meio, ainda fiquei a saber que com tudo isto, a mãe daqueles dois irmãos a rondar entre os catorze e os dezasseis anos queria que eles continuassem os estudos para um dia serem gente.

Eles acreditavam que iriam chegar a casa com boas notícias para aquela mãe que eu já via à minha frente completamente desesperada, com as mãos na cabeça, enfiadas nos cabelos desalinhados, sem saber que rumo dar à vida.

Peguei no telefone e quando ouvi a directora do outro lado, só lhe disse que tinha à minha frente dois irmãos desesperados a pedir trabalho para a mãe.

O silêncio dela ajudava-me a ter força para continuar aquela ousadia: “ao menos ouça” – pedi-lhe.
Toda a gente merece ser ouvido.
Ouvido, apenas.
Ser ouvido pelo outro.
Por um outro que, por mais ocupado, dê um pouco do seu tempo para ouvir. Mesmo que não dê mais nada, está a ajudar a acreditar que um dia será possível acontecer algo mais…
Ser ouvido pelo outro ajuda a combater o desespero.
Ser ouvido pelo outro faz-nos acreditar que temos alguma dignidade: porque ainda não se perdeu tudo.
Às vezes, só ouvir, pode fazer toda a diferença ao outro.
Nunca em minha vida presenciei semelhante: os filhos a darem a cara para pedir trabalho para uma mãe!
Meu Deus!
Que mundo é este?
Em que mundo eu vivo?
Em que mundo você vive?
Vivemos num mundo-cão!
Vivemos num mundo em que filho procura trabalho para mãe desesperada.
Nesse dia eu falei com Deus.



05/06/10

O problema é apenas com os mosquitos?







A acreditar num Criador, seja qual a doutrina que se siga ou, por outro lado, sendo ateu ou arraigado defensor da teoria do BIG-BANG… em qualquer das situações, todos deveríamos saber, a esta altura do campeonato, que este globo de rocha e água que habitamos no espaço, assim como os bens mais preciosos que o povoam que não somos nós! – infelizmente e ao contrário das mais optimistas crenças, NÃO SÃO ETERNOS!

Toda a vida que habita o nosso mal-amado planeta completa-se, tornando-o numa grande cadeia em que os elos são cada um dos seres animais e vegetais por esta Terra espalhados.

Nós, os que acreditamos que o mundo foi criado especialmente para nos render vassalagem, entendemos que a existência animal que interessa vai pouco além do canário que mantemos trancafiado numa gaiola lá em casa para nos en-cantar e do macaco que se agarra às grades duma jaula no jardim zoológico para nos entreter nas tardes de domingo.
E assim, seguimos na vida com a displicência de quem ainda não tomou consciência do quanto os próprios actos, mesmo que inocentes, têm sido prejudiciais a toda a vida do planeta.
Somos muitos a não querer lagartas a devorar-nos as flores e as alfaces e a nos valermos de pesticidas. E, envolvidos na guerra contra as lagartas, nem nos temos apercebido que, graças à eficiência desses pesticidas, as abelhas e as joaninhas têm sumido dos nossos jardins, voando rumo à extinção. E isto, sem nos darmos conta do quanto são vitais para nossa própria existência.

Se quiser, leia aqui e aqui.

Paralelamente, alguns de nós, por razões miseráveis, vão sendo os causadores do abate massivo de florestas, alterando ou destruindo ecossistemas inteiros. Sim, porque uma floresta é uma cadeia de vida: com toda a diversidade de vegetação e animais vertebrados e invertebrados. Todos a viver numa interdependência total que dá pelo nome de cadeia alimentar, em que a perda de um dos elos faz toda a diferença para o resto dos intervenientes:

“Era uma vez um peixinho pequenino que é comido por um peixe maior, que é comido por um peixão…”

Com este desenfreado abate, vivemos na iminência de assistirmos à extinção de grande parte de nossas florestas, que, para além de serem o pulmão do planeta, também interferem com o ciclo das águas.
Pode ler aqui.


“Mas… Estou tão longe. Não me irá afectar, com certeza!” – lógica de alguns de nós que acreditamos piamente que, estando geograficamente longe do problema, esse não nos afecta.

Imaginemos, então, a título de mero faz-de-conta: uma espécie de mosquito daqueles lá da África mais remota que, fazendo parte da dita cadeia alimentar de outra espécie animal exterminada, já não tem um predador que mantenha o equilíbrio. Por consequência, a sua quantidade aumenta sobremaneira, havendo uma superpopulação de mosquitos que buscando novos pousos, vem por aí em debandada a invadir o mundo... finalmente chegando até nós.

E uma noite… estamos nós, inocentes criaturas que nunca fizemos mal a uma mosca, a dormir como anjos despreocupados em nossa cama … quando somos, sem aviso prévio, devorados por um bando de mosquitos, esfomeados depois da longa viagem.





O nosso silêncio e a nossa passividade fazem-nos cúmplices do crime


Criado pela Assembleia geral das nações Unidas em 1972, o Dia Mundial do Ambiente é celebrado a 5 de Junho, com o intuito de alertar o Homem para as questões ambientais.



2010 é o ano em que se tenta chamar a atenção para a importância da preservação da BIODIVERSIDADE em todo o mundo.



Para informações interessantes, aceda aos links:

http://www.parquebiologico.pt/ver_outros.php?tipo=2&id=14
http://www.greenpeace.org/brasil/pt/Blog/bem-vindos-ao-ano-da-biodiversidade/blog/1215

24/05/10

Quando acontece...

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Faz de conta que vais ao médico e, depois de exames e mais exames, de um procura daqui e investiga dali, de dúvidas dacolá, de experiências com medicamentos de um lado e de outro e de um este não surtiu efeito, experimenta-se aquele… ainda é necessário repetir aquele exame médico que tu havias jurado nunca mais voltar a fazer!

Exactamente.




- Vai repetir sim. – garante o médico. Aliás, corrigindo: Senhor Doutor Fulano! Ah, pois é! O dito senhor doutor te manda fazer e refazer exames levados da breca, que nem ao diabo se deseja e tu ainda tens que entender que é para teu próprio benefício.
Ora bem, bem vistas as coisas, o médico não tem culpa de lhe apareceres à frente a te queixares de umas esquisitices mal explicadas que geram resultados duvidosos nos relatórios dos exames de diagnóstico.
Valha-te Deus! Não podias ter ficado por umas básicas dorzitas na barriga, bem demarcadas à esquerda ou à direita, para simplificar o diagnóstico? Não.


E nisto