11/02/15

Carta de despedida



Já contei trinta anos desde o dia em que te foste, numa partida em que não nos permitiram a despedida.
Pergunto-me ainda hoje, como consentiste em ir sem deixar que eu olhasse teus olhos uma derradeira vez para reter na memória essa luz que enchia de serenidade a minha vida.
Foste e levaste-as contigo: à luz de teus olhos e à serenidade que conheci um dia.

Trinta anos passaram, tanto ficou por dizer… Tanto ficou por amar.
Questiono-me – se já se foi tanto tempo, por que não foi de mim esta dor que ainda me aperta o peito e me amarra a garganta num nó doído, de cada vez que não te sinto a meu lado?
Por que não foi de mim esta amargurada ânsia de bradar e de bater a quem te levou de mim?
E tu? Se prometeste estar sempre a meu lado, porque alçaste tuas asas naquele voo súbito e me deixaste aqui? Eu que não tinha asas, que não sabia voar… Eu que não sabia seguir-te, esperei que regressasses…
Esperei a noite toda, uma noite tão longa e escura, onde as estrelas não brilharam porque estavam de luto, também elas. E nessa noite longa e escura, onde as estrelas não brilhavam, o céu, até ele chorava, condoído de ver meu choro, ora pranto, ora choro calado, eterno lamento…

Só tu não entendeste que devias voltar, porque era a meu lado, o teu lugar.
Não voltas, realmente?
É para sempre a partida?

O que tem a morte de tão fascinante que te seduziu a ponto de me abandonares? Essa vadia enfarruscada que se esconde nas sombras, que cobiça a todos… o que, de tão fascinante te sussurrou ela, ao ouvido naquela noite, que te convencesse a segui-la? Insensato! Tão volúvel foste a seguir essa desconhecida e deixar-me aqui, tão só. Eu que não tinha asas, que não sabia voar, que nem conhecia o caminho…




25 comentários:

Elzinha Coelho disse...

Carta lindamente escrita, como só alguém doendo e amando tanto, poderia escrever, passando tanta emoção, que chegou a me arrepiar.

Beijos no coração

SOL da Esteva disse...

Trinta anos... trinta dias... trinta minutos...
A dor de Amor é mais profunda que a dor física.
Texto que é um Testamento da despedida sofrida.



Beijos


SOL

Luma Rosa disse...

Sem palavras, Carmem!
Eu nunca fiquei sem me despedir de quem partiu dessa vida, a não ser meu pai, pq era uma menininha de 4 anos. Me despedi de muitas pessoas ainda em minha adolescência - amigos, familiares... Acho que aprendi a aceitar a morte sem resignação. Mas em horas em que leio textos como o seu, meu coração se encharca de pesar e um nó vem à garganta. São dores que não esquecemos e que os anos apenas se encarregam de mostrar que a presença física fica cada vez mais longe, porém a presença emocional se intensifica conforme percebemos que estamos ficando sós nessa vida.
Por isso lhe digo que só posso me compadecer da sua dor e que a ausência não nos livra de continuar amando as pessoas que partiram, mas ainda bem que elas estiveram em nossas vidas.
Beijus,

Elvira Carvalho disse...

É uma dor sem tamanho, o que demonstra o seu texto. Infelizmente eu não consegui despedir-me de meus pais que ambos morreram em tempo de ausência.
Um abraço e bom fim de semana

Ana Paula disse...

Eu nem sei o que escrever. É de uma beleza tuas palavras tão intensa como a tua dor. Obrigada por compartilhar. Beijo

EU disse...

Um texto fantástico pelo tom sofrido e inconformado pela partida do ente querido, de sopetão, sem que pudesse haver a necessária despedida.
Acresço a beleza literária que adensa a comoção.
Real ou ficcionada, é uma situação extremamente penosa.
Bjo, Carmen

Mariazita disse...

Querida amiga/Querido amigo
O meu blog - A CASA DA MARIQUINHAS encontra-se temporariamente inactivo, a fim de que eu possa dispor de tempo para ultimar o meu segundo livro.
A título excepcional publicarei um post no dia 14/02 para assinalar a passagem de mais um aniversário.
Gostaria de contar com a tua presença, o que desde já agradeço.
Beijinhos
MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

heretico disse...

uma escrita sugestiva e envolvente...

beijo

ReltiH disse...

SIEMPRE DUELE...!
ABRAZOS

Boop disse...

(retribuindo a visita)
Há despedidas tão mais brutais do que aquelas dos amantes que se separam….

José María Souza Costa disse...


Olá,
Passei para lhe desejar, um dia de domingo agradável, e um tempo de Carnaval extraordinário.
Um abraço.

Malu Silva disse...

Carmem, há quem escreva com tamanha precisão cirúrgica e esta carta foi escrita assim, com certeza. Precisão e uma imensidão de sensibilidade. Sai em lágrimas, triste pela dor contida em ti, mas que sei ser legítima e pertinente por tamanha perda. Um abraço

Fê blue bird disse...

Não encontro palavras amiga Carmem, para exprimir o que senti ao ler este seu desabafo.
Não lido bem com estas partidas e não sei como a consolar...

beijinho comovido e um abraço apertado

Isa Sá disse...

Palavras inquietantes...

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

Catarina disse...

Os anos não enfraqueceram a dor...

Bandys disse...

É uma dor que silencia gritando dentro do coração.
Nunca me despedi tambem, e parece que o vazio nunca é preenchido.
belas palavras.

Beijos, boa semana

CÉU disse...

"Não" li, mas sim, "bebi" essa carta.
Quem assim escreve, tem o poder da palavra, do pensamento e das lembranças.
O conteúdo e a forma estão mais que perfeitos, mas, seguir uma desconhecida, feia, mórbida, negra, não dá para compreender e muito menos aceitar.
E nem sequer se lembrou da dor do outro...! Como eu compreendo!

Dias bem felizes!

OceanoAzul.Sonhos disse...

Tocou-me imenso... a dor da partida de um grande amor é eterna.

beijinho
cecilia

© Piedade Araújo Sol disse...

trinta anos, e parece que foi ontem!
partidas que não podemos comandar, essa foi definitiva porque assim é a morte.
dolorosamente triste e bem escrita!
comovida estou.

beijo

:(

Cristina Cebola disse...

Um texto arrepiante. Só na parte final me apercebi, que a separação não tinha sido uma escolha, mas um chamamento da morte. Aquela que quando chega tudo parece saber, e não aceita recusas nem argumentos, de quem ela quer levar, ou daqueles que ficam a sofrer.
Uma belíssima narrativa, que me parece uma história real e não um lamento fictício de cariz poético.
O sonho, será sempre uma forma de elevarmos o pensamento e de viajarmos por mundos inóspitos...essas são as suas asas, e , com elas poderá voar sempre que queira.

Beijinho meu e grata por tão bela partilha....:)

Tais Luso disse...

Muito difícil dizer alguma coisa tal a dor exposta. A indignação da perda está presente tanto quanto outros sentimentos. Lindo, mas dolorido! Aliás, os mais belos poemas são escritos assim, diante de uma enorme emoção.

Beijo, Carmem!
Aplausos.

Clau disse...

Oi Carmem,
Muito intenso seu texto...
Não sei lidar com esse tipo de despedida...
E quanto mais o tempo passa, pior é.
Tenho boas recordações daqueles que se foram, mas queira ou não, sempre ficam palavras que não foram ditas.
Beijos :)

Smareis disse...

Escreveste lindamente essa carta. Palavras que me deixou a pensar...
Uma dor que ainda doe demais em ti.
Encantada com suas escritas Carmem.
Ficarei por aqui desde já.
Deixo um abraço!

Marisa Giglio disse...

Carmem , sua carta emociona do começo ao fim . A separação abrupta causada pela morte dilacera . E você tão bem descreve esta dor . Beijos

Maria Luisa Adães disse...

Mas não se lamente

Se o merecer
Um dia o vai encontrar!

Maria Luísa Adães

"os7degraus"