07/02/15

A efemeridade dos deuses

De há uns anos para cá, tem este pensamento me perturbado a quietude da alma, porque, como é natural que seja, quando se é mais jovem e com a mente esverdeada focada nas descobertas dos atractivos da vida, é justo que não haja tempo de sobra para constatações acerca da efemeridade da vida e da decadência que a passagem do tempo dita.
Mas com o passar dos anos, a vida nos vai confrontando com o envelhecimento e com o declínio físico, que, se não é regra, atinge, no entanto, muitas das pessoas que endeusamos e que tínhamos como pressuposto, serem eternas e aprumadas, mantendo força e altivez intactas. Parece assim impossível, a nossos olhos, chegar um dia a constatar nesses nossos falsos deuses uma debilidade e um arqueamento do corpo directamente proporcional à vontade de contrariar o peso do tempo.
Nos últimos anos tenho sido confrontada, de forma recorrente, com esta degradação física e consequentemente emocional, de pessoas que um dia foram deuses, seres imponentes, donos das suas vidas, senhores da situação e de seus corpos, de seus próprios passos e orientadores dos passos dos seus queridos.
E esse envelhecimento do corpo não se prende apenas à idade, posto que, se há pessoas com idade bem avançada e autónomas, outras há, que cedo, por n circunstâncias, perdem seu vigor.

Perturba-me um pai que cede o comando de seus passos à atenção e cuidado do filho, que por ele, pai, contorna obstáculos, tal como um dia, ele, pai, o encaminhou pelos caminhos mais seguros para que não corresse risco de tropeçar.
Abala-me as estruturas, já de si oscilantes, presenciar um filho a segurar na sua mão a mão insegura do seu pai. A mão do filho a apoiar toda a vida guardada naquele homem que hoje é uma amostra mirrada do gigante que foi um dia.
Emociona-me o filho que segue a estender sua mão a todos os cantos e pisos que podem atraiçoar os pés cambaleantes do pai, adaptando sua casa, adaptando sua vida para que não haja quinas onde o pai se magoe, nem tapetes onde tropece, nem corrimão que falhe quando ele precisar se agarrar, nem banco que falte na pressa de assento para tomar fôlego, agora tão fraco.
Emociona-me o filho, que em seu amor único, transforma o pudor do banho em momento abençoado.

Mas o que me tira o ar e faz marejar os olhos é presenciar o filho que numa derradeira mostra de cumplicidade genuína, observa atentamente o pai que sorve em goles curtos a bica que ele lhe dá a beber, ali, sentados à mesa onde há quarenta anos, o pai ensinou-o a gostar de café.

23 comentários:

ReltiH disse...

LA VIDA NOS CONDUCE A TODO TIPO DE ESPECTÁCULOS, Y ÉSTE EL DE CREERNOS A VECES INMORTALES, ES UN SINIESTRO DE NUESTROS EGOS. EXCELENTE PLANTEAMIENTO.
UN ABRAZO

Arco-Íris de Frida disse...

Que lindo texto... e é isso mesmo, nossos deuses nao vao viver para sempre...temos que retribui-los enquanto vivem... e felizes os filhos que assim procedem... provavelmente os seus filhos irao mirar em suas atitudes e fazer o mesmo por eles...

Beijos...

Nidja Andrade disse...

O amor nas menores demonstrações traz a grandeza do sentimento e isso se percebe nas tuas palavras. AbraçO

Gracita disse...

Bom dia Carmen
É comovente ver essa inversão de valores. O filho que se torna pai amoroso para cuidar cuida Pai criança tão carente de afeto e cuidados.
Mas existe também o lado vil... aquele filho que abandona o velho Pai quando este mais carece de atenção e amor
Uma fabulosa reflexão

Um ótimo domingo
Um forte abraço,
Gracita

Nilson Barcelli disse...

O teu texto é uma interessante visão da vida, ainda que resumida.
E fiquei comovido com a maneira como descreves a troca de papeis entre o pai e o filho.
Parabéns pela excelência do teu texto, principalmente na maneira brilhante com que consegues transmitir emoções.
Tem um bom domingo e uma boa semana, querida amiga Carmem.
Beijo.

Marisa Giglio disse...

Carmem , seu texto me emocionou .
Eu e meu irmão vivemos o que descreve .
Nosso pai , nosso herói , fez quatro anos de hemodiálise e , nos primeiros tempos caminhava até a máquina , dentro do hospital, depois, a bengala o ajudava e , no final , era por nós levado na cadeira de rodas .
O homem forte foi se fragilizando fisicamente aos nossos olhos , até o momento que Deus veio buscá-lo para que descansasse .
Aprendemos o quão difícil foi nos mostrarmos filhos tratando com amor aquele pai tão sofrido. Mas , valente e corajoso nos ensinando até a hora da sua morte .
Beijos e ótima semana

Magia da Inês disse...


Você descreveu imagens tão afetuosas do filho pelo pai idoso... mas, infelizmente, a maioria dos filhos e filhas já não tem amor, carinho, gratidão e paciência com os pais... apenas querem sua pensão mensal (aposentadoria) para alimentar os próprios vícios.

Bom domingo! Bom semana, amiga!
Beijinhos.
⋰˚هჱ

Manuel disse...

Muito pertinente, oportuna e forte este texto.
Já Camões dizia, aqueles que da lei da morte se vão libertando, esses que são capazes de deixar o nome de tal forma ligado à vida que, mesmo, depois de partirem, continuam sempre presentes.

Graça Pires disse...

Um texto emocionado que emociona e nos põe perante uma realidade dura...
Beijo.

AC disse...

Carmen,
A leitura do seu texto transportou-me, de imediato, para um provérbio antigo: filho és, pai serás, como fizeres, assim terás.

Um beijinho :)

Helena disse...

Carmem, ao lado do agradecimento pela tua atenciosa visita ao meu espaço, quero deixar também registrada a minha admiração pelo teu blog. Dei uma passeada por algumas postagens e pude conhecer o teu estilo, tua forma de navegar pela vida, tua visão do mundo.
Gostei de conhecer um pouco de ti através de UM MAR APAIXONADO, de onde retirei esta frase que muito me encantou:
“Sou deste mar gelado, por vezes irado, mas é meu mar-amado.”
Bom saber-te brasileira! Mas bom saber também do teu apreço e amor por essa terra irmã, onde tenho muitos amigos (tanto físicos quanto virtuais).
A postagem de agora lembrou-me meus pais, do tempo em que eu tive de cuidar deles e de protegê-los, nesta inversão de papéis que mesmo fazendo parte do ciclo da vida, na verdade está a nos preparar para “perdê-los”.

Esse cuidado que todo filho deveria ter pelos pais em sua velhice, esta troca de lugares que permeia a existência, tudo isso foi muito bem trabalhado na tua narrativa.
Gostei do teu espaço! Gostei de ti, e quero voltar a visitar-te, pois tens uma visão do mundo que muito me agrada.
Deixo-te sorrisos a brincar no meio das estrelas que descobri por aqui.
Com carinho,
Helena

Clau disse...

Oi Carmem,
Assim é a vida...
Um dia fomos cuidados e amparados por nossos pais, e em determinado momento a situação se inverte.
Cabe a nós termos a paciência e o carinho que outrora, eles tiveram conosco.
Muito reflexivo seu texto...
Boa semana, beijos!

Rita Freitas disse...

Emocionante este texto, o que não deixou de me lembrar o abandono dos idosos que hoje em dia se vê cada vez mais.

Obrigada por este momento.

bjs

Luma Rosa disse...

Oi, Carmem!
Um dia os papéis se invertem e abençoados os pais que conseguem ter os filhos por perto em sua velhice, pois muitos estão abandonados em casas de repouso ou à própria sorte.
A minha mãe se tornou uma velhinha rebelde e queria manter a sua independência a qualquer custo, o que não foi possível por causa das limitações do corpo.
É triste ver alguém que muito fez na vida, ser podada de suas vontades e ser vencida por ela mesma.
Que lindas imagens suas palavras me fizeram ver!
Beijus,

Lilá(s) disse...

Maravilhoso texto! também ele me fez marejar os olhos!não tive a sorte de ver meus pais envelhecer mas a velhice me emociona.
Bjs

Elvira Carvalho disse...

Um lindo texto.
A vida é como os alcatruzes da nora. Começamos lá em baixo, e vamos subindo até chegarmos à plenitude da vida. E então começamos de novo a descer, fazendo o percurso inverso dos nossos filhos. Natural que eles nos apoiem como nós apoiamos nossos pais. O pior é que dada a conjuntura actual, os nossos filhos tem que procurar longe, a vida digna que o seu próprio país não lhe dá. E assim ficam os velhos na maior solidão.
Um abraço

Ives disse...

A grande potência de alguns poetas é transformar o efêmero numa infinita caminhada, com laivos de sentimentos que estão acima das brevidades! abração

© Piedade Araújo Sol disse...

um texto que emociona quem o lê.

:(

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, texto perfeito que reflecte os valor perdidos entre familiares, embora a vida tenha inesperadamente graves acontecimentos, os sentimentos familiares e não só são valores que devem permanecer e transmitidos aos descendentes.
AG

SOL da Esteva disse...

Pertinente, actual, vivo e edificante. O teu Texto atinge a nota mais alta. Parabéns.
Endeusar pessoas não só nos fragiliza como exige o que elas não têm ou não podem dar.
Preciosa reflexão.


Beijo


SOL

Fê blue bird disse...

Emocionante este texto que tanto me diz, tenho os meus pais com 85 anos e custa-me tanto vê-los perder dai a dia a força onde me apoiava.

beijinho comovido

EU disse...

Carmen, é pelo teu olhar sensível e atento ao outro que me emociona a fase de vida do pai ou mãe em que, pela lei da vida, tem de ceder o papel que lhe(s) coube durante longos anos.
Ainda bem! Sinal de que ainda há filhos que trocam de papel com serenidade, carinho, atenção e redobrado cuidado. Chora-se por dentro, quando se assiste à execução inexorável do tempo. Frequentemente, trazemos o espanto no olhar, pois é muito difícil aceitar o inevitável. Tal como para os pais os filhos parecem ser eternas crianças, também para os filhos os pais serão eternos "deuses".
Gostei imenso de ler este teu excelente texto.
Bjo, Carmen

Cristina Cebola disse...

Emocionei-me deveras a ler este texto, principalmente porque estou a passar por esta situação, no papel de filha. Só não tomamos o café, porque nos faz mal às duas.
É realmente difícil, muito difícil defrontarmo-nos com a decadência física dos nossos pais, daqueles que um dia nos protegeram e foram os nossos heróis. No entanto o cuidar deles, não se trata de uma inversão de papeis, trata-se apenas do cumprimento do ciclo da vida.
Gostei muito de conhecer este espaço.
Agradeço, ter-se associado à lista de seguidores do meu.
Beijinho Carmen e grata por esta maravilhosa reflexão.